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Aviação agrícola busca assento no ensino superior

Três faculdades passam a incluir a disciplina de aplicação aérea na grade curricular

Publicado em: 19/12/23, 
às 17:08
, por IBRAVAG

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“Somente com educação, produção de conhecimento e comunicação conseguiremos derrubar mitos e conquistar a empatia da sociedade em relação à operação aeroagrícola, uma missão que engloba toda a cadeia produtiva do setor.” A afirmação é do presidente do Instituto Brasileiro da Aviação Agrícola (Ibravag), Júlio Augusto Kämpf, que comemora a inclusão de disciplina voltada à aplicação aérea em mais três faculdades brasileiras entre 2023 e 2025 – universidades Federal do Espírito Santo (UFES) e Federal de Sergipe (UFS), além do Centro Universitário Filadélfia (Unifil).

A comemoração faz muito sentido. Atualmente, menos de 10 por cento das 512 faculdades da área de ciências agrárias oferecem a matéria. Muitas vezes, a atividade aeroagrícola é abordada por professores que conhecem a operação em disciplinas como tecnologia de aplicação e/ou mecanização. Uma iniciativa que tem mais a ver com o docente do que com a ementa, que é um breve resumo do que se vai estudar e os procedimentos a serem realizados em uma determinada matéria.

A engenheira agrônoma e mestre em Ciências Agrárias Katyussa Karolyne Grassato Pinheiro, responsável pela disciplina de Ervas Daninhas na Faculdade Guarapuava, na região Centro-Sul do Estado do Paraná, faz parte deste seleto grupo de professores que leva o conhecimento sobre aplicação com aeronaves – leia- se avião, helicóptero e drone – para a sala de aula. Recém- graduada foi trabalhar em uma fazenda no Mato Grosso, que possuía um avião agrícola para as aplicações na lavoura. “Fiquei perdida. Não sabia por onde começar”, confessa a professora.

Katyussa foi uma das muitas estudantes que cursou engenharia agronômica e se formou sem ter contato algum com as operações aeroagrícolas. Agora, com conhecimento da atividade, para evitar que seus alunos saiam despreparados da graduação, na parte de tecnologia de aplicação, também aborda o tema aviação agrícola em suas aulas. A Faculdade Guarapuava não dispõe de avião para as saídas de campo, mas a turma treina com drones. E a professora incentiva os acadêmicos a correrem atrás do conhecimento sobre o setor, participando de cursos, palestras e outras atividades propostas.

O professor aposentado da Universidade Federal de Lavras (Ufla) Wellington Pereira de Alencar Carvalho, mestre e doutor em Agronomia ênfase em Energia da Agricultura, foi outro profissional que adicionou à disciplina que lecionava os conceitos da aplicação aérea. Instrutor do extinto Curso de Aviação Agricola (Cavag), o engenheiro agrônomo levou os conhecimentos adquiridos para a classe. Para isso, contava inclusive com um avião Ipanema, que foi repassado para a Ufla depois do encerramento das atividades da Fazenda Ipanema.

Hoje, a disciplina está sob a responsabilidade do engenheiro agrônomo e doutor em Engenharia Agrícola Aldir Carpis Marques Filho, que mantém o conteúdo voltado à atividade aeroagrícola. Confessa que sua maior experiência é na parte de máquinas terrestres. Assim, a partir desse ano, uma vez por semestre chama o professor Wellington de Carvalho para dar uma aula.  “Temos os equipamentos dentro do laboratório e um avião, que apesar de não estar em atividade, permite que os estudantes tenham uma ideia do equipamento”, pontua o professor.

Fórum Nacional da Aviação Agrícola leva debate sobre setor para Brasília

O Ibravag está atento à lacuna na grade curricular da engenharia agronômica em relação à tecnologia de aplicação aérea. Diante desse quadro, o ano de 2023 foi dedicado a estreitar os laços do setor com as instituições de ensino e entidades, como o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), que pudessem auxiliar no processo de levar a um maior número de escolas o conhecimento sobre a tecnologia aeroagrícola. E o ano de 2023 foi próspero na divulgação das operações aeroagrícolas. Vinte e sete universidades foram contatadas e, em oito, o Ibravag realizou palestras, para a apresentar o instituto, o Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) e como funciona a aviação agrícola.

A diretora operacional do Ibravag, Michele Fanezzi, está na linha de frente do projeto de tornar o Ibravag uma referência em ensino. Administradora, professora universitária com know-how como diretora de faculdade, coordenadora de curso e de unidade, sempre na área de educação, a gestora da entidade setorial está abrindo portas nas universidades brasileiras para a tecnologia aeroagrícola transformar-se em uma das disciplinas da grade curricular.

“E já temos boas notícias. Somente neste ano avançamos o debate em quatro instituições de ensino renomadas e já está agendado para 6 de março do próximo ano o Fórum Nacional da Aviação Agrícola na UnB”, anuncia a gestora. A universidade de Brasília dispensa apresentações. Com quatro centros – Brasília (Campus Darcy Ribeiro), Planaltina (Faculdade UnB Planaltina), Gama (Faculdade UnB Gama) e Ceilândia (Faculdade UnB Ceilândia) –, é uma das maiores instituições de ensino superior da região Centro-Oeste e uma das mais importantes do Brasil e América Latina.

E é nesse ambiente educacional que professores, pesquisadores renomados e conhecedores da atividade aeroagrícola vão se encontrar. Só para dar uma ideia, nomes reconhecidos na área como o professor Ulisses Antuniassi, do Departamento de Engenharia Rural e Socioeconomia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), estudioso da tecnologia de aplicação aérea; e o especialista em segurança de voo agrícola Milton Cardoso de Lima, membro do 5º Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Seripa V), estão confirmados.

A proposta é com base em informações atualizadas sobre tecnologias debater os pontos primordiais para o bom desenvolvimento das atividades relacionadas à aviação agrícola no Brasil e no mundo. “Com isso, pretendemos difundir informações relevantes e verídicas nas comunidades acadêmicas, civil e profissional”, pontua a professora da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária no Curso de Gestão de Agronegócios e no Programa de Pós-Graduação em Agronomia Maísa Santos Joaquim.

A docente formada em Engenharia Florestal, com mestrado e doutorado em Ciências Florestais – linha de pesquisa Economia Florestal, que também atua como vice-diretora da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da UnB, lamenta que em Brasília, que é o centro da tomada de decisões sobre regulamentação e outras políticas públicas, não ocorra nenhum debate sobre o assunto. Não fala somente da atividade aeroagrícola em si. “As decisões sobre os insumos utilizados nas lavouras, como defensivos, fertilizantes, entre outros, também passam pelos órgãos reguladores que possuem sede em Brasília”, observa.

GESTORA: Michele comemora avanços nos contatos com as faculdades da área das ciências agrárias.
Foto: Castor Becker Júnior/C5 NewsPress

Para professora da UnB, universidade é o espaço para ampliar discussão

O Fórum Nacional da Aviação Agrícola é a primeira grande ação envolvendo a atividade dentro da UnB. O tema nunca foi discutido de forma ampla na universidade, embora a professora Maísa Santos Joaquim seja uma entusiasta das operações aeroagrícolas e conheça bem os bastidores do setor. “Meu irmão é piloto agrícola e, convivendo com ele, comecei a ver de perto o preconceito e as barreiras existentes tanto na profissão quanto na atividade. Isso despertou a minha curiosidade de pesquisadora”, confessa.

Maísa entende que está na hora de demonstrar como realmente a operação é realizada. “Precisamos passar informação verdadeira para as pessoas”, pontua. Para a professora, a universidade é o espaço adequado para debater diferentes assuntos, verificar dados, pesquisar, produzir conhecimento e falar com a sociedade. A ideia é que o Fórum seja um medidor para avalisar a inclusão de conteúdo referente à operação aeroagrícola na disciplina de Máquinas Agrícolas ou até mesmo a criação de uma cadeira eletiva (optativa) sobre o tema.

De acordo com a professora, além dos estudantes da área das Ciências Agrárias, também já manifestaram interesse na disciplina acadêmicos das engenharias Florestal e Ambiental. Mas a implantação de uma disciplina específica envolvendo aplicação aérea, além do reduzido número de profissionais que pesquisam a tecnologia e habilitados para atuar na área, esbarra também nos custos elevados para montar um laboratório para as aulas práticas.

ENTUSIASTA: Maísa Joaquim quer implantar a disciplina

Fórum Nacional da Aviação Agrícola     

  • Quando: 6 de março de 2024, às 8 horas
  • Local: Auditório da Associação dos Docentes da UnB (ADUnB), em Brasília
  • Inscrições: abertas a qualquer pessoa interessada e deve ser realizada antecipadamente via sistema
  • Programação: Dividida em duas partes – cinco palestras e uma mesa-redonda com autoridades na parte da tarde
  • Já confirmados (*): Luis Eduardo Rangel (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA); Ulisses Antuniassi (professor e pesquisador Universidade Estadual Paulista/Unesp); professor e consultor de empresas Marcelo Drescher; Milton Cardoso de Lima (CENIPA – Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aéreos); Cleria Regina Mossmann (especialista em Gestão de Documentação/ Mossmann Assessoria); Eduardo Schulter (Senar-DF), como mediador da mesa-redonda; Nilson Leitão (presidente do Instituto Pensar Agropecuária/IPA); Fabrício Morais Rosa (diretor-executivo da Associação Brasileira de Produtores de Soja/Aprosopa); Júlia Emanuela Almeida de Souza (coordenadora de Produção Agrícola da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil/ CNA); Gabriel Colle (diretor-executivo do Instituto Brasileiro da Aviação Agrícola/Ibravag e Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola/Sindag; Mariana Altoé (Superintendência de Pessoal de Aviação Civil/SPL da Agência Nacional da Aviação Civil/Anac).

Disciplina sobre aplicação aérea deve entrar no currículo da Ufes até 2025

O start para a criação de uma disciplina focada em tecnologia aeroagrícola na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) já foi dado. O coordenador da Faculdade de Agronomia, o professor graduado em Engenharia Agrícola Edney Leandro da Vitória, já conquistou o primeiro sim para a inclusão da matéria como optativa na grade curricular do curso. Agora, é preciso aprovar a ementa nas instâncias superiores da universidade. “As próximas turmas, possivelmente, a partir de 2025 já terão a possibilidade de se matricularem na matéria que a princípio será optativa”, assinala o professor. A ideia, com o tempo, é transformar a cadeira em obrigatória.

Embora o conteúdo envolvendo aplicação aérea ainda não esteja dentro de uma disciplina específica, o tema não passa despercebido dentro do Campus de São Mateus (Centro Universitário Norte do Espírito Santo/Ceune, 220 quilômetros distante da capital capixaba), onde funciona a Agronomia da Ufes. Professor das disciplinas de Mecânica, Motores e Máquinas Agrícolas para a graduação em Agronomia e as disciplinas de Tecnologia de Aplicação de Defensivos Agrícolas, Agricultura de Precisão e Redes Neurais Aplicadas na Agricultura no Programa de Pós-Graduação em Agricultura Tropical (PPGAT/UFES), o mestre e doutor em Engenharia Agrícola tem convidado seus alunos a participarem de pesquisas envolvendo drones de aplicação.

Um empenho que já rendeu prêmio no mais recente Congresso Científico da Aviação Agrícola, que ocorreu paralelamente ao Congresso da Aviação Agrícola 2023, em julho deste ano. A turma de Vitória voltou para casa com um segundo lugar para a pesquisa “Qualidade da pulverização por meio de aeronave remotamente pilotada na cultura do citrus” (publicado nas páginas 51 a 55 desta edição) e Destaque Inovação para o estudo “Controle da mancha de phoma em aplicações utilizando aeronaves remotamente pilotadas em Coffea arabica”, assinado pelo professor em parceria com o também docente César Abel Krohling, do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural-Incaper.

E as pesquisas seguem em ritmo acelerado para a próxima edição do Congresso Científico desenvolvido pelo Ibravag/Sindag. Mais que ganhar prêmios e ser validado pelos pares, os estudos realizados pela Ufes são justamente para a promoção das boas práticas agrícolas em geral. Como no Espírito Santo, os drones dominam a cena em termos de aplicação aérea, o programa de pós-graduação da Faculdade de Agronomia vem desenvolvendo pesquisas na parte de tecnologia de aplicação aérea de defensivos e fertilizantes foliares com aeronaves remotamente pilotadas desde 2019.

De acordo com Vitória, ao todo são 13 pessoas – ele mais 12 orientandos das turmas de mestrado e doutorado –, desenvolvendo cada um o seu projeto de iniciação científica focados em produzir conhecimento na área da aviação agrícola. Os experimentos para a avaliação das aplicações via drone são realizados em uma área específica da lavoura de café da Fazenda Experimental. Ainda, os estudantes do programa de pós-graduação em agricultura tropical podem utilizar o laboratório da universidade, que possui três drones de pulverização. Embora o drone seja bem aceito no Estado, o professor adianta que vai ser trabalhado nas aulas aplicações com aviões e helicópteros.

INICIAÇÃO CIENTÍFICA: professor Edney Vitória levou estudantes do mestrado de Agricultura Tropical para conhecer de perto uma aeroagrícola, incentivando a pesquisa na área
Foto: Divulgação

Primeira turma de aeroagrícola na Federal de Sergipe começa em 2024

A disciplina de Tecnologia de Aplicação Aeroagrícola a partir do primeiro semestre de 2024 está disponível como optativa no curso de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Sergipe (UFS). E as 50 vagas ofertadas já estão preenchidas. De acordo com o professor da instituição de ensino, mestre e doutor em Fitotecnia Rychardson Rocha de Araújo, a previsão é que a cadeira passe a ser obrigatória com a reformulação da grade curricular da Engenharia Agrícola, que vai ocorrer no próximo ano, e incluída como optativa na Agronomia.

Embora aviões e helicópteros agrícolas não sejam usados no território sergipano, os drones são bem aceitos pelos produtores locais. Além disso, o Estado de Alagoas, vizinho de Sergipe, usa pulverização aérea com avião. Por isso, a formação vai abranger todas as ferramentas utilizadas pela tecnologia de aplicação aérea. O professor conta que inclusive já está desenvolvendo um projeto de pesquisa envolvendo aeronave não tripulada. “Uma forma de abrir uma linha de pesquisa”, reforça o docente.

Enquanto as aulas não começam, Araújo está montando o laboratório. Conta que conseguiu uma ponta de pulverização de uma empresa aeroagrícola para montar um simulador. E está indo atrás de outros possíveis parceiros para compor o espaço de aulas práticas no campus.

NO CURRÍCULO: Rychardson Araújo será o responsável pela disciplina de Tecnologia de Aplicação a partir do primeiro semestre de 2024

Agronomia da Unifil implantou nesse semestre a disciplina aplicação aérea

O Centro Universitário Filadélfia (Unifil), com sede em Londrina/PR, implantou a disciplina Aviação Agrícola e Tecnologia de Aplicação Aérea na Faculdade de Agronomia. A primeira turma da disciplina começou no segundo semestre de 2023 e tem como professor titular o engenheiro agrônomo João Miguel Ruas. Mestre em Tecnologia de Aplicação e coordenador de Aviação Agrícola e há 12 anos ministrando aulas na instituição de ensino privada, durante a mudança na grade curricular do curso de agronomia, Ruas sugeriu a inserção dos assuntos. Inclusive, montou a ementa e o material técnico.

Como a escola ainda não possui um avião próprio para as aulas práticas. Os estudantes são levados às aeroagrícolas da região para conhecerem uma aeronave de perto, como funciona e como é feita a operação no campo. “É uma disciplina que desperta o interesse dos alunos”, comenta o professor. Como tem poucas universidades que abordam o tema, Ruas tem estimulado os estudantes a cada vez mais entender o processo de aplicação aérea.

RUAS: professor é o titular da nova cadeira da grade curricular da agronomia

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