A safra 2025/2026 trouxe consigo um cenário desafiador para o agronegócio brasileiro. Pressionados por juros altos, dificuldade de financiamento e preços de commodities em queda, produtores rurais estão trabalhando para a redução do custo das lavouras, medida que tem impactado também a aviação agrícola. A esperança vem do avanço dos biocombustíveis, fortalecendo a agricultura onde as usinas estão inseridas.
E o Rio Grande do Sul, que amarga uma redução na área semeada de arroz de 8,06% em relação ao ciclo anterior, conforme dados de fevereiro do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), já conta com uma usina de etanol de trigo em operação comercial desde janeiro, em Santiago. Outra produtora de etanol de trigo está em fase de implantação em Passo Fundo. Ainda, uma usina de etanol de milho, em Júlio de Castilhos, está em fase embrionária.
“Temos um promissor horizonte onde a produção de grãos, tanto de verão quanto de inverno, deverá se intensificar para atender demandas cada vez mais crescentes”, pontua o presidente da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Domingos Velho Lopes. As novas possibilidades são desenhadas na produção de biodiesel com a soja e de etanol com o trigo, incluindo os coprodutos resultantes desse processo. Entre eles, o DDG (Dried Distillers Grains – Grãos Secos de Destilaria), subproduto rico em proteínas, fibras e energia, que tem alto valor nutricional e é usado na nutrição de bovinos de corte e leite.
DUPLO OLHAR
“Essa possibilidade de um duplo olhar para a produção, destinando-a para a alimentação e energia, nos dá a expectativa de um futuro promissor”, assinala Domingos. No entanto, considera necessário solucionar desafios atuais que dependem, em suas palavras, “de muita estratégia e inteligência para contorná-los”.
Entre as medidas tomadas, está a redução da área cultivada de arroz, considerada por Domingos “uma adequação em um cenário de preços pressionados e um alto custo de produção que colocam em risco a lucratividade da orizicultura”. Conforme o levantamento de fevereiro do Irga, foram 891.908,5 hectares de área semeada de arroz na safra 2025/2026 no Rio Grande do Sul, em relação ao ciclo 2024/2025, que registrou 970.194 hectares cultivados.
Agora, a entidade está trabalhando junto com o Governo do Estado para a ampliação da área irrigada no Rio Grande do Sul. “Ao nosso ver, essa é a política que melhor irá garantir um futuro mais confortável ao setor, refletindo também na economia de toda a sociedade gaúcha”, reforça o dirigente.
Federarroz centra esforços para ampliar competitividade do arroz gaúcho

Nunes conta que entidade está mapeando as assimetrias no custeio de produção do Rio Grande do Sul e o dos países do Mercosul.
Foto: Nestor Tipa Júnior AgroEffective Divulgação
A diretoria da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz) também está mobilizada em busca de alternativas para driblar as dificuldades vividas pelos produtores gaúchos do cereal. O presidente da entidade setorial, Denis Dias Nunes, conta que há conversas com usinas de etanol de grãos que estão se instalando no Estado, para verificar a viabilidade de ampliar o mercado do arroz.
Também está na pauta da Federarroz a competitividade do produto gaúcho, afetada por fatores estruturais. Entre eles, a carga tributária e o fim de incentivos fiscais, como o crédito presumido para vendas interestaduais, que encarece o arroz local frente ao de outros estados e até de países do Mercosul.
Nesse sentido, Nunes destaca que há um esforço em curso para mapear as assimetrias de custos com países vizinhos, especialmente o Paraguai. “Temos uma legislação trabalhista e ambiental rigorosa, além de custos com maquinário e mão de obra, que impactam diretamente a competitividade”, explica. Para ele, essas diferenças precisam ser consideradas em políticas públicas e acordos internacionais.
Diante desse cenário, a Federarroz orienta produtores a buscarem alternativas dentro das propriedades, como a diversificação de receitas, integração de culturas e rotação. Estratégias, que segundo o dirigente, podem compensar a dependência exclusiva do arroz. Nunes reforça que “o desafio, agora, é equilibrar o mercado e garantir condições para a sustentabilidade da cadeia produtiva”.
Aviação agrícola registra retração, mas mantém base estrutural sólida
Embora o Rio Grande do Sul tenha sido afetado de forma intensa pelo cenário político-econômico brasileiro, aeroagrícolas de todo o País sentem os efeitos da retração no agro. O Termômetro Econômico da Aviação Agrícola, divulgado em março pelo Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag), aponta para uma redução média na demanda por aplicação aérea de 25%. Do total de empresas consultadas, 86% revelaram que os serviços diminuíram em 15% durante a safra 2025/2026. Dentro desse grupo, 61% indicaram queda acima de 30% no volume de serviços.
Segundo o diretor operacional do Sindag, Cláudio Júnior Oliveira Gomes, os dados refletem com consistência o cenário enfrentado pelas empresas do setor. A tendência, de acordo com os próprios operadores, é de continuidade desse quadro no curto prazo: 57% dos entrevistados projetam nova queda na demanda, enquanto apenas 7% esperam crescimento.
O levantamento, conduzido pelo pesquisador e economista Cláudio Oliveira, doutor em Administração, ouviu 28 empresas distribuídas pelas regiões Sul, Centro-Oeste, Sudeste e Norte do País. Apesar da retração operacional, o estudo indica relativa estabilidade financeira em nível nacional, com a inadimplência sob controle em 71% das companhias — sinal de uma base estrutural ainda sólida. Somente o Rio Grande do Sul apresentava inadimplência alta, chegando a 87%.
SELETIVIDADE
Os resultados acompanham o movimento mais amplo do agronegócio brasileiro. Indicadores recentes de diferentes segmentos apontam desaceleração, especialmente em atividades mais dependentes de crédito. Dados da Anfavea, utilizados pelo Ministério da Fazenda, mostram recuo no mercado de máquinas agrícolas.
Análises da Embrapa e da FGV Agro também indicam maior seletividade por parte dos produtores na adoção de tecnologias. Nesse contexto, ganha relevância a estratégia das empresas aeroagrícolas de investir em soluções que ampliem a eficiência operacional.
Embrapa desenvolveu arroz de alta performance para produção de etanol

Conhecido como arroz gigante, Magalhães Júnior explica que o cultivar é rico em amido, com potencial para 430 litros de etanol por tonelada processada.
Fotos: Acervo Embrapa Clima Temperado
Embora as primeiras usinas de grãos no Estado estejam focadas no trigo, estudos para o uso do arroz também como matéria-prima para a produção de bioenergia já estão prontos. A Embrapa Clima Temperado lançou, em 2014, o cultivar BRS AG, já pensando na perspectiva de uso diversificado do arroz.
De acordo com o pesquisador da Embrapa Clima Temperado (Pelotas/RS), Ariano Martins de Magalhães Júnior, o novo cultivar é capaz de gerar 430 litros de etanol por tonelada processada. Considerado um arroz gigante, por ter o dobro do tamanho do agulhinha — longo e fino —, o BRS AG é rico em amido.
“O BRS AG possui uma performance superior ao milho, que tem potencial médio de 360 litros por tonelada processada, e da própria cana-de-açúcar, 72 litros por tonelada”, destaca o pesquisador e engenheiro agrônomo, que detém expertise em melhoramento genético e desenvolvimento de cultivares. No entanto, na época do lançamento, não houve interesse do mercado.
Agora, com a implantação de biorrefinarias de etanol de grãos e o baixo preço do arroz para consumo humano, Magalhães Júnior acredita que a variedade possa se tornar interessante para o produtor gaúcho. Segundo ele, a vantagem para o arrozeiro se dará na redução da produção do longo fino para cultivar o BRS AG. “Com isso, haverá um equilíbrio entre oferta e demanda. Assim, o preço reage”, acredita.

O BRS AG (direita) é o dobro do tamanho do arroz agulhinha, que é longo e fino
ESTRATÉGIA
No entanto, a solução não vem a curto prazo. “É uma estratégia de médio a longo prazo. Inclusive, os produtores precisam de uma garantia de que as biorrefinarias realmente vão absorver essa matéria-prima”, explica o pesquisador. Afinal, o BRS AG é específico para a produção de etanol. Além do processo mercadológico, é preciso produzir as sementes em larga escala para entregá-las aos produtores de grãos, o que, na visão de Magalhães Júnior, deve demorar no mínimo duas safras.
Depois disso, em termos de lavoura, o cultivar utiliza a mesma estrutura já montada para o arroz longo e fino, bem como o mesmo padrão tecnológico e tratos culturais. Já na biorrefinaria, Ariano aponta que o cereal também gera coprodutos da produção de etanol, como os demais grãos, com valor de mercado agregado até maior que o biocombustível. Nada se perde. A casca do arroz é utilizada como energia para as caldeiras. “Então, tem que computar toda essa questão energética no ciclo da biorrefinaria”, observa o pesquisador.
Trigo ganha destaque na produção de etanol no Estado

Casiane vê nas usinas de etanol de grãos no Rio Grande do Sul um novo mercado para as culturas de inverno.
Foto: Divulgação
Ainda falando em Rio Grande do Sul, a pesquisadora da Embrapa Trigo (Passo Fundo/RS) Casiane Tibola destaca que as usinas de etanol de grãos chegam para abrir novas oportunidades de mercado para os cereais de inverno. Inclusive, a partir de cooperação técnica entre a unidade e a Be8 (antiga BSBios), que deve inaugurar no final do ano uma usina de etanol de trigo, está em desenvolvimento cultivares com maior teor de amido para a produção do biocombustível.
A Embrapa Trigo também mantém pesquisas que indicam viabilidade técnica de substituição parcial ou total do milho por trigo e outros cereais de inverno em rações para suínos e aves, sem prejuízo da conversão alimentar. “Essa alternativa amplia a flexibilidade de mercado e reduz a dependência de uma única matriz energética”, pontua a pesquisadora, que destaca a estrutura produtiva diversificada do Estado.
“Soja, arroz, trigo, aveia, milho, pecuária de corte e leite, fruticultura, entre outras, constituem vantagem competitiva estrutural. A diversificação reduz riscos sistêmicos associados à monocultura e permite integração lavoura-pecuária-bioenergia”, reforça Casiane. E essas estratégias baseadas em inovação tecnológica (agricultura de precisão, cultivares adaptadas), sustentabilidade (plantio direto consolidado e práticas de baixo carbono) e coordenação de cadeias fortalecem, no seu entender, a resiliência do setor no médio e no longo prazo.
Primeira usina de etanol de trigo do Brasil está em operação desde janeiro em Santiago/RS
A primeira usina autorizada a produzir etanol hidratado de trigo no Brasil entrou em operação comercial em 8 de janeiro, em Santiago, colocando o Rio Grande do Sul no mapa da produção de etanol de grãos. Com capacidade de moagem de 100 toneladas por dia, produz 40 mil litros de etanol; a planta da CB Bionergia também poderá produzir álcool neutro, destinado à indústria de bebidas, cosméticos e fármacos.
O projeto, que começou a ser construído em 2023, quando recebeu as licenças de instalação, começou a ser sonhado em 2018. A diretora do empreendimento, a engenheira agrônoma Maria Eduarda Bonotto, conta que a dificuldade de comercialização do trigo, que é sensível às intempéries, prejudicando sua qualidade — medida pelo pH (potencial hidrogeniônico) —, fez com que a família resolvesse empreender no ramo de biocombustível.

Maria Eduarda Bonotto destaca que todo o grão será usado, inclusive o carbono gerado pelo processo de conversão do trigo em etanol será engarrafado e destinado à indústria de refrigerantes e água gaseificada.
Foto: CB Bionergia
Como o pH inferior não interfere na conversão para o etanol, e o Estado não produz esse tipo de biocombustível, precisando trazê-lo de outras regiões do País, “vimos, com a construção da usina, uma oportunidade de amenizar a dor do produtor rural”, reforça Maria Eduarda. Com isso, fomenta a cultura de inverno, que atualmente ocupa em torno de 1 milhão de hectares no Estado. Mas não é só o trigo que a usina consegue processar. “A matéria-prima usada aqui na usina pode ser qualquer cereal amiláceo, como milho, triticale, arroz, sorgo, entre outros”, assinala a gestora.
E, cumprindo a agenda de biocombustíveis no que tange à descarbonização, o resíduo é zero, inclusive de CO2. No processo do etanol, devem sobrar por dia 30 mil quilos de DDG, um farelo usado para a nutrição animal. Mais para o futuro, Maria Eduarda conta que também está mirando o mercado de vinhaça, em parceria com empresas de biofertilizantes, porque é muito rica em carbono orgânico, potássio e micronutrientes. Ainda nesse primeiro momento, devem ser envasados por dia 28 mil quilos de CO2.
Usina de etanol da Be8 deve mudar dinâmica da triticultura gaúcha

Fábio Benin projeta produção anual de 220 milhões de litros de etanol anidro, em torno de 20% do consumo total do biocombustível no Rio Grande do Sul.
Foto: Divulgação Be8
O avanço dos biocombustíveis no Rio Grande do Sul tem potencial para mudar a dinâmica mercadológica do trigo, foco das usinas de etanol em implantação no Estado. A Be8 (antiga BSBios) começa a operar no final do ano, em Passo Fundo/RS, com capacidade para processar 1,5 mil toneladas de matéria-prima por dia, sendo dois terços obrigatoriamente de trigo.
De acordo com o especialista em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Be8, o engenheiro agrônomo Fábio Benin, ao todo, a usina consumirá 600 mil toneladas de trigo por ano – caso a usina seja abastecida somente com o grão –, o que equivale à produção de uma área de aproximadamente 200 mil hectares, dos cerca de 1 milhão de hectares plantados.
O especialista conta que o projeto foi concebido tendo em vista a possibilidade de ampliar a produção de trigo no Estado. Estima que, no inverno, na região Norte do Estado, onde está a planta industrial, cerca de 2 milhões de hectares ficam ociosos.
A entrada da Be8 no mercado deve impactar a dinâmica da triticultura gaúcha. “Vamos criar uma demanda contínua ao longo do ano, diferente do modelo atual, concentrado em exportações e compras dos moinhos”, explica. Outro diferencial será a atuação direta junto aos produtores, com fornecimento de sementes, assistência técnica e contratos antecipados de compra. A proposta é garantir maior previsibilidade e segurança ao produtor rural, estimulando o aumento da área cultivada.
Embora o trigo seja a base do projeto, outras culturas amiláceas, como milho, triticale, sorgo e arroz poderão compor parte da matéria-prima. Além do etanol, a Be8 vai produzir glúten vital, DDGS e capturará o gás carbônico gerado na fermentação.






