Castor Becker Júnior
Jornalista e Assessor de Imprensa do Sindag
A partir desta edição, a Revista AvAg trará uma série de quatro artigos relembrando os bastidores e a linha de frente da primeira operação aeroagrícola do País, que completará 80 anos em 19 de agosto de 2027. A série se estenderá até a celebração da data no Congresso AvAg 80 anos, na base da Tangará Aeroagrícola, em Orlândia (SP).

Foto: Divulgação
Para começar, é preciso lembrar que, antes de chegar ao Brasil, a aviação agrícola precisou ser imaginada, experimentada e construída. A primeira operação agrícola com um avião ocorreu em 3 de agosto de 1921, nos Estados Unidos, resultado de um trabalho conjunto entre o Departamento de Agricultura de Ohio e o Serviço Aéreo do Exército norte-americano.
A missão: combater um surto de lagartas-esfinge que atacavam um plantio comercial de árvores catalpa próximo à cidade de Troy. Prima dos ipês e resistente à umidade, a madeira da catalpa era usada em postes de cercas e dormentes de ferrovias.
O voo pioneiro ficou a cargo do tenente John Arthur Macready, então com 33 anos. Com ele estava o engenheiro aeronáutico francês Étienne Dormoy, de 36 anos, criador do equipamento instalado na lateral do avião e acionado manualmente por uma manivela.
Reinvenção Qualquer semelhança com o que ocorreria no Brasil 26 anos depois não é mera coincidência. A cena também teria um biplano, o piloto à frente e, no assento traseiro, um técnico operando manualmente um equipamento para lançar o produto sobre o alvo. Aqui, eram Clóvis Candiota nos comandos e o engenheiro agrônomo Antônio Fontelles atrás dele.
Porém, em uma época em que as informações atravessavam fronteiras de forma incompleta e lenta, o que ocorreu naquele 19 de agosto de 1947, em Pelotas, teve mesmo muito de reinvenção. No final daquela tarde, o Muniz M-9 pilotado por Candiota decolou do Aeroclube de Pelotas para atacar uma nuvem de gafanhotos que havia acabado de pousar em uma área rural do município.
A bordo estava Fontelles. E, acoplada ao avião, a “geringonça” — como ele chamava o aparelho encomendado a um funileiro local, possivelmente a partir do esboço feito com ajuda de uma publicação estrangeira.
Daí a grande dúvida: aquilo funcionaria?
Candiota e Fontelles decolaram sem saber. E retornaram para pouso no Aeroclube de Pelotas ainda sem uma resposta. A confirmação viria somente no dia seguinte, quando enfim se contabilizaram os insetos abatidos.
A angústia dessa espera só se tornaria pública 24 anos depois, quando Candiota descreveu os detalhes da operação durante a 1ª Reunião Anual dos Aplicadores Aéreos Brasileiros. Realizado em 1971, no Parque Anhembi, na capital paulista, o encontro foi promovido pelo Ministério da Agricultura e marcou o primeiro evento aeroagrícola ocorrido no Brasil.






