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Política agrícola brasileira opera com o cobertor curto

Referência em agronegócio, Felippe Serigati fala sobre os desafios diante do orçamento público apertado e da sustentabilidade ambiental do setor

Publicado em: 06/01/26, 
às 05:00, 
por IBRAVAG

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A safra 2025/2026 começa pressionada por desafios macroeconômicos, que impõem limitação de recursos para o custeio da lavoura e mantêm reduzido o orçamento para políticas específicas do agro. Se, por um lado, a agropecuária brasileira sofre com a política monetária refém da política fiscal expansionista do governo, por outro, o setor segue competitivo. Inclusive, diante da demanda mundial pela redução da pegada de carbono, o Brasil sai na frente, porque já tem tecnologia disponível para atender aos desafios ambientais.

Para o pesquisador e professor doutor em economia Felippe Cauê Serigati, coordenador dos cursos lato sensu do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV Agro), o agro brasileiro reúne atributos que o colocam como um importante player no mercado global. No entanto, vem enfrentando desafios inerentes ao atual cenário macroeconômico brasileiro.

Referência quando o assunto é agronegócio, Serigati aponta que neste momento, em que eventos climáticos extremos provocam quebra de safra em diferentes regiões do País, o setor vive sob uma política agrícola que opera com o chamado “cobertor curto”. A expansão dos gastos públicos sem aumento proporcional da arrecadação mantém o caixa apertado. “Com isso, sobra pouco orçamento para políticas específicas do agro, como o seguro rural, que perdeu prestígio e previsibilidade”, pontua o pesquisador.

O estudioso do agronegócio lembra que não é a primeira vez que o setor enfrenta turbulências. E, em sua avaliação, ao longo dos anos tem se saindo bem. Inclusive, projeta crescimento para os próximos anos, mas ressalta a importância da rentabilidade e da sustentabilidade econômica e ambiental. E sinaliza: “O setor precisa comunicar melhor seus avanços, especialmente frente às pressões internas e internacionais por descarbonização e rastreabilidade.”

Como o senhor avalia a atual política econômica brasileira no que diz respeito ao agronegócio? Há coerência entre política fiscal, monetária e agrícola?

A política agrícola, do lado econômico, tenta navegar no espaço que sobra entre as políticas fiscal e monetária. No momento em que conversamos*, temos uma política monetária refém da política fiscal. O governo começa seu mandato fazendo uma política fiscal bastante expansionista. Temos isso escrito na PEC da Transição**, ou seja, antes mesmo de o governo tomar posse. A cada ano, temos visto uma expansão fiscal significativa. Isso naturalmente aquece a demanda, aquece a economia e pressiona a inflação. Com isso, o Banco Central precisa elevar a taxa de juros para tentar desaquecer essa demanda. E o que tem acontecido com a política agrícola? O espaço para a alocação de recursos, que se materializa principalmente na equalização do crédito agrícola, ficou mais apertado, porque o governo tem expandido fortemente os seus gastos e, por mais que tenha feito um esforço para ampliar a receita, esta não consegue acompanhar. Do lado da política monetária, há uma tentativa de equalizar a taxa de juros. Só que, como não tem tanto orçamento assim, porque essa taxa de juros está alta, a política agrícola fica ali numa história de cobertor curto. – Se ofertar muito recurso, será com uma taxa de juro mais elevada. Então, precisa reduzir o volume de recursos. Junto com isso — e aí fechando essa pergunta —, o governo, infelizmente, deu uma atenção menor para uma política pública que é muito importante no ambiente de mudanças climáticas para o agro, que é justamente o seguro rural.

*A entrevista foi concedida no dia 17 de novembro, às 14 horas (horário de Brasília).
**A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Transição foi promulgada na noite de 21 de dezembro de 2022, pelo Congresso Nacional. A Emenda Constitucional 126/2022 prevê o aumento do teto de gastos em R$ 145 bilhões por um ano, para cobrir programas sociais, entre outras despesas, do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, iniciado em 2023.

A subvenção do governo ficou prejudicada?

O seguro rural não teve a progressão de orçamento como vínhamos vendo, principalmente no governo federal anterior. E mais do que isso: esse orçamento ficou menos previsível, ficou mais exposto a cortes orçamentários, a contingenciamentos. Isso, naturalmente, acaba prejudicando, porque as seguradoras não têm clareza sobre por quanto podem oferecer o seguro, se não sabem qual vai ser a parte de subvenção efetiva que o governo vai proporcionar. O volume de recursos já ficou pressionado devido à questão fiscal e à política monetária, só que a parte de seguro rural também, porque, dentro do atual governo, foi uma política que teve menor prestígio comparada com os outros instrumentos de política agrícola.

Existe algum país que tenha um modelo de seguro rural que, na sua visão, possa ser mais interessante para o Brasil?

Há diferentes modelos de seguro rural pelo mundo e, em geral, cada país tem um modelo adaptado às características da sua atividade agropecuária. Essa adaptação, geralmente, ocorre em um processo de evolução ao longo do tempo. Certamente, o Brasil, que tem características muito particulares na sua atividade agropecuária, se conseguisse proporcionar estabilidade e volumes mais razoáveis para o seguro rural, também acabaria desenvolvendo um modelo que melhor atenda às necessidades dos produtores rurais brasileiros. Em geral, quase todos os modelos têm participação do setor público, porque o seguro rural é uma atividade muito arriscada. Na hora em que se tem um evento que vai demandar o seguro, ele acontece com um conjunto grande de indivíduos, ou seja, a pressão sobre o sistema de seguro é maior. Para tentar reduzir esse risco e tornar esse produto atraente para o setor privado, o governo precisa fazer a sua parte. Isso vale para quase todos os países. Se eu não me engano, o único país com um seguro rural diferente disso é a Argentina. A Europa como um todo e os Estados Unidos têm justamente esse desenho. E isso que estou pegando países que são exportadores líquidos* de alimentos. Se pegarmos a China e a Índia, que são importadores líquidos** de alimentos, a situação é completamente diferente. Eles precisam proteger os produtores da quebra de safra porque já precisam recorrer ao mercado internacional para garantir o abastecimento do mercado interno. Se houver algum problema mais agudo por quebra de safra, ocorrerá o problema de insegurança alimentar. Não é insegurança alimentar via aumento de preço; é falta de comida mesmo. Então, para eles, o desenho da política precisa ser diferente.

*Exportadores líquidos – são aqueles países que exportam mais de um determinado produto ou recurso do que importam.
**Importadores líquidos – nações que importam mais bens e serviços do que exportam, resultando em um balanço comercial negativo.

SUSTENTABILIDADE
Serigati explica que o Brasil é o único país do mundo que consegue reduzir a pegada de carbono na produção da carne bovina

O Brasil ainda não desenvolveu o seu modelo, que contemple as necessidades do produtor brasileiro?

 Aqui no Brasil há um esforço para tentar desenvolver um modelo adequado às características brasileiras. Produzimos em uma área muito grande do nosso território. Isso significa que pega diferentes padrões climáticos e biomas para diferentes culturas. Aquela piadinha: “todo ano, em algum lugar, vai ter quebra de safra; todo ano, em algum lugar, vai ter uma safra generosa”. Só que, em algumas regiões, temos uma cultura maior de seguro rural e, em outras, não. Alguns produtos têm uma área de cobertura maior de seguro; outros, não. Por exemplo: a área de cobertura do seguro da cana-de-açúcar em São Paulo é muito limitada. Outro exemplo são os grãos, que vão ter uma cobertura maior de seguro na região Sul e uma participação menor de seguro na região Centro-Oeste. Nós ainda estamos no processo de desenvolver o modelo brasileiro. Se pudéssemos conferir estabilidade nessa evolução, esse desenvolvimento se daria de maneira mais rápida e de maneira mais sólida.

O Plano Safra deste ano trouxe a exigência do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) para a concessão do custeio. Isso facilita também para as seguradoras, ou é uma medida para evitar a inadimplência?

O zoneamento faz sentido para o segurador também. No entanto, quando a instituição financeira oferta o crédito, espera receber aquele recurso de volta e quer saber se esse devedor tem condições efetivas de pagar o empréstimo. No caso do universo agro, o que pode frustrar essa receita é justamente a questão climática. Vale a velha historinha de que o agro é uma fábrica a céu aberto, ou seja, a produção agropecuária está associada aos ciclos biológicos. Então, o zoneamento é um instrumento muito importante porque sinaliza: – você quer produzir aqui? – Você tem essa janela para esse produto. Ninguém está dizendo que você não pode produzir fora dessa janela ou produzir outro produto. Mas não faz sentido você alocar um recurso que tem sua origem no contribuinte se está sendo avisado de que corre um risco maior mostrado na curva de probabilidade da janela de plantio. Então, faz sentido o zoneamento para a atividade do setor como um todo.

O Plano Safra 2025/2026 aumentou significativamente o valor disponibilizado – são R$ 516,2 bilhões, representando um acréscimo de R$ 8 bilhões em relação à safra anterior. Esse valor contempla as necessidades do produtor?

Na verdade, aumentou em valor nominal. Além disso, foi colocado nessa conta o valor das CPRs (Cédulas do Produtor Rural), que não eram para estar lá. Pode haver um problema, inclusive, de dupla contagem. Ainda assim, mesmo deixando de fora a participação das CPRs, se você descontar a inflação, o valor ofertado foi menor este ano em relação ao ano passado. Ao fazer uma análise, o poder de compra – quanto consegue comprar de máquinas, equipamentos, defensivos, fertilizantes, sementes – ficou menor. Não é culpa do governo, mas o governo está operando em um ambiente de recessão fiscal. Parte dessa recessão fiscal tem sido construída pelo próprio governo, que criou um conjunto de regras que expande gastos obrigatórios e, aí, os gastos que não são obrigatórios, como os associados à política agrícola, acabam ficando comprimidos.

No seu entender, as decisões sobre taxa de juros, arcabouço fiscal e políticas de crédito dialogam de forma adequada com a necessidade do produtor rural?

Não. Algumas coisas afetam a economia brasileira como um todo, inclusive o universo agro. Nós temos um governo que, de fato, está fazendo uma expansão fiscal. Ninguém está surpreso com isso. Esse grupo político está na quinta passagem pelo Palácio do Planalto, e vemos a expansão fiscal em todas as passagens. Isso naturalmente vai demandar um esforço arrecadatório maior ou emissão de dívida maior. Estamos fazendo as duas coisas. Se for arrecadatório maior, pega todos os setores, inclusive o universo agro. Felizmente, o universo agro, até o momento, comparado com os demais setores da economia, tem conseguido proteger-se melhor. Falando em política monetária, a taxa de juros – o custo do capital – está elevada, mas está elevada para todo mundo.

E essas questões como descarbonização, acordos internacionais, pressão ambiental e rastreabilidade devem mudar o agro brasileiro? Como é que essa realidade está se encaixando no campo?

Isso é importantíssimo. Uma das características que diferenciam o universo agro brasileiro de outros setores aqui no Brasil é justamente que, de um lado, conseguiu incorporar tecnologia e aumentar a produtividade. Do outro lado, o universo agro cresceu também atendendo o mercado internacional. Certamente, se estivéssemos conversando com alguém da Confederação Nacional da Indústria (CNI), ele diria: – tem uma pecinha na conjuntura que faz toda a diferença. Isto é: enquanto a China é parceira comercial do agro, essa mesma China é concorrente da indústria brasileira. E faz muita diferença você ter a China como parceira e ter a China como concorrente. E o mercado internacional apresenta, às vezes, demanda por produtos acompanhados de novos atributos. A tendência é demandar alguns atributos de maneira crescente. Isso vale para a pegada de carbono, para a rastreabilidade. Talvez agora, no curto prazo, isso possa parecer como um conjunto de obrigações. E é. No entanto, a União Europeia tem utilizado isso fortemente como uma barreira comercial, tanto que nós, brasileiros, temos chamado isso de barreira ambiental. Dependendo do nicho em que está operando, você consegue oferecer o produto com esses atributos, seja aqui no Brasil ou, principalmente, no mercado internacional. É um diferencial importante, que, às vezes, permite ter um produto mais valorizado. Às vezes, é simplesmente a chave que vai permitir acessar ou não um determinado mercado. Vale lembrar  que está ampliando o número de compradores que demandam esses atributos.

O Brasil está preparado para essa demanda ambiental?

Quando pensamos em pegada de carbono, o universo agro brasileiro tem uma grande oportunidade. Porém, há uma demanda mundial pela redução da pegada de carbono de diversas atividades produtivas. Isso é algo que vale especialmente para o universo agro, porque ele está associado a ciclos biológicos. Então, é uma produção que acontece junto à natureza e é muito sensível às questões climáticas. No entanto, enquanto outros países ainda têm o esforço de tentar desenvolver tecnologias que reduzam a pegada de carbono da sua produção agropecuária, diversas tecnologias já estão disponíveis no Brasil. Nosso esforço é muito mais de disseminar o seu uso. Vamos enumerar três tecnologias que considero importantes. Número um: recuperação de pastagens degradadas. Conforme você faz uma pastagem mais adequada, a gramínea vai crescendo e captura carbono da atmosfera. Mais do que isso, aumenta a qualidade desse pasto e melhora a qualidade da alimentação do animal. Boa notícia: você vai ter uma engorda mais fácil desse animal. Não podemos esquecer que recuperar pastagem degradada é quase um ciclo do pasto. Outro ponto importante são os sistemas integrados. Ele vai ter diversos arranjos, mas vai orbitar sempre entre três grandes núcleos: lavoura, pecuária e floresta. Pode ser lavoura/pecuária, pecuária/floresta, lavoura/floresta. O que importa é que você, nessa integração, consiga um sisteminha, um tipo de cultura, para aproveitar a externalidade deixada, viabilizada por outra cultura. Isso é muito bacana, mas há um ponto de interrogação aí. – Para quais tipos de atividade, para quais tipos de cultura esse sistema integrado efetivamente traz retorno? De qualquer forma, é uma tecnologia que já existe e que já tem dado retorno para uma pequena fração do mercado agropecuário. Terceiro é o sistema de plantio direto, que já é amplamente utilizado no Brasil. É só difundir a sua utilização. Óbvio que isso não significa que a missão está cumprida e novas tecnologias não vão ser desenvolvidas. Mas veja, a agropecuária europeia tem um desafio bem maior diante de si.

VOLATILIDADE
Em menos de 12 meses, o dólar baixou 1 real, uma redução expressiva na visão do professor da FGV Agro, entendendo que talvez a dificuldade de reverter esse excesso de liquidez de dólar até agora, talvez seja um novo normal

Embora o Brasil tenha tecnologia que permite a sustentabilidade ambiental da agropecuária, consequentemente reduzindo a emissão de CO2 equivalente, por que a atividade continua sendo atacada como sendo a grande vilã das mudanças climáticas? Por que não se discute o modelo agropecuário dos países europeus, por exemplo?

Nesse sentido, temos diversas particularidades que podemos trabalhar e que não são excludentes. Pensando na Comunidade Europeia, percebe-se o soft power dos europeus, que é justamente a capacidade de liderar a criação de regras e determinação de padrões. Eles conquistaram isso. É natural que digam: – você quer acessar o nosso mercado? O padrão é este aqui. Imagine que, se você é um comprador do Oriente Médio, por que não vai querer um produto com padrão europeu? Independente desse padrão ser razoável ou não, você tem essa sinalização como algo de nível superior. E os europeus fazem uso disso, e é legítimo como instrumento de poder. Do outro lado, pensando em mercados agropecuários, para alguns produtos, o Brasil e a União Europeia são concorrentes. O europeu não deve ficar em uma situação confortável quando o governo anuncia que vai abrir o mercado para o Hemisfério Sul e tem lá um tal de Brasil. Não vão receber isso de braços abertos. Eles vão reagir e utilizar o argumento que estiver à disposição. Do outro lado, você tem a questão de redução de emissão. Eu estou aqui em São Paulo. Por que não é falado sobre o desmatamento realizado no Estado de São Paulo? E olha que temos uma fração bem limitada da nossa Mata Atlântica. Porque já aconteceu. Esse fósforo já riscamos. É a mesma coisa na Europa. Para reduzir a emissão em termos de desmatamento, precisamos conter onde pode, onde ainda tem vegetação nativa. Isso ocorre justamente nas regiões de fronteira do universo agrário. E aí vem uma coisa que é desconfortável. Quando o Brasil vira e fala: – olha, a minha produção de carne bovina emite menos carbono – se for de áreas consolidadas – do que o confinamento europeu. É verdade. – Europeu, quanto você consegue reduzir de emissão aí da sua produção de carne bovina?Eu não consigo reduzir muito.Brasil, quanto você consegue?Eu consigo reduzir bastante. O Brasil também pode acenar dizendo que tem espaço para essa redução. O diferencial é que esse esforço mereceria ser remunerado. Mas isso, na hora que põe o dinheiro na mesa, tem sido um ponto de não consenso em diversas negociações, inclusive as que temos presenciado nas últimas COPs (Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima).

Esse comparativo sobre a emissão de carbono da produção de carne bovina brasileira e europeia é pouco divulgado. O agro comunica mal? Qual é a lição de casa que precisa ser feita?

Não é exclusividade do agro. O Brasil como um todo não se vende bem lá fora. Porém, o negócio do agro tem uma lição de casa que não é de hoje e que precisa ser feita. Quer ver um exemplo? Foi divulgado um estudo da Fundação Getúlio Vargas, da FGVAgro, na COP30, a respeito do potencial de redução de emissão de carbono, CO2 equivalente, por parte da nossa pecuária de corte. Com frequência, acho que quase todo mundo já ouviu aquela história: “se quiser reduzir a emissão, consuma menos carne bovina”, porque a carne bovina, na média, tem uma emissão maior. Só que a produção de carne bovina não é homogênea. Como fazemos uma pecuária essencialmente a pasto aqui no Brasil, se fizermos um tratamento adequado do pasto, essa gramínea reduz a emissão de carbono. Na verdade, conforme essa gramínea cresce, ela captura carbono da atmosfera. Se reduzirmos o tempo de abate do animal, conseguiremos praticamente zerar essa emissão. E tem um grandão na América do Sul, chamado Brasil, que produz essa carne bovina, que contém uma emissão da pegada de carbono baixíssima; pode até ser carbono neutro. Temos que levar essa imagem. – Isso vale para toda a agropecuária brasileira? Não, mas o Brasil é o único que consegue fazer isso. Nosso esforço é ampliar a adoção dessa tecnologia. É mudar o método produtivo. Às vezes, é muito mais um desafio de gestão do que um desafio, vamos dizer assim, de capital físico.

Na sua visão, quais os caminhos que o setor deve seguir para manter e ampliar essa competitividade?

De um lado é manter a trajetória de sucesso que o setor já obteve, ou seja, investimento pesado em tecnologia e inovação. De novo, essa inovação não é necessariamente só capital físico – chip, drone –, mas também mudança de gestão. A forma de se gerir as unidades produtivas, sejam fazendas, sejam agroindústrias, tudo isso pertence ao universo agro. Do outro lado, manter esse esforço de buscar o mercado externo. O grande cliente do agro brasileiro hoje é justamente o mercado interno. Só que o mercado que tem apresentado o maior dinamismo, maior crescimento, é o externo. Seja porque, em geral, as economias emergentes têm crescido a um ritmo mais acelerado que o Brasil, seja porque o agro brasileiro tem conquistado novos mercados. Então, é prosseguir justamente nessa trajetória. Junto com isso, associar esse crescimento, essa expansão, à ampliação da oferta desses atributos que o mercado tem exigido, atributos associados à sustentabilidade, à qualidade do produto e, aí, a rastreabilidade é importante. Então, tem sim uma lição de casa a ser feita, que na verdade é reforçar uma trajetória de sucesso que o agro já tem percorrido há algum tempo.

E depois desse tarifaço de Donald Trump, o Brasil precisa acelerar ainda mais a busca por novos mercados?

Esse esforço é sempre importante e não é inédito. O agro brasileiro, dependendo do produto, exporta para mais de 150 países. Isto é quase o mundo todo. Só que ampliar esses mercados deve ocorrer na medida do possível. Se formos pensar em alguns produtos para os quais temos como grande comprador a China, é mais difícil diversificar mercados. Você não vai encontrar outra China com fôlego para absorver um volume tão expressivo. Mas aí não é um problema da oferta brasileira. É uma característica da demanda mundial. Se a China quiser comprar mais, temos que vender mais para eles, sem dúvida alguma. Então, diversificar é importante. Mas isso já tinha ficado evidente na pandemia, quando todo mundo ficou assustado e alguns exportadores líquidos de alimentos – estou falando de Rússia e Argentina – restringiram suas exportações. E o mundo falou: – a demanda por alimento continua. E, no meio dessa turbulência, quem tem produto, quem tem escala para atender essa demanda nos mercados internacionais é o Brasil. Ou seja: o agro brasileiro tem conseguido construir e manter uma imagem junto ao mercado internacional de ser um fornecedor com escala e confiável. Se alguém está precisando do produto, encosta o barquinho no porto aqui e provavelmente vai sair com o contêiner cheio. Só terá que negociar o preço.

GESTÃO
Palestrante orienta o produtor brasileiro a fazer contas, considerar todas as possibilidades, inclusive a terceirização de serviços, para enfrentar os desafios da conjuntura brasileira atual

O comportamento dos preços internacionais das commodities indica um período de maior volatilidade?

Até mesmo as projeções do FMI sugerem maior estabilidade nos preços comparado aos últimos anos. Porém, vamos reconhecer: os últimos anos foram excepcionais. Nós tivemos pandemia, nós tivemos questões climáticas com quebra de safra, seja aqui no Hemisfério Sul, seja no Hemisfério Norte, nós tivemos uma guerra na Ucrânia, nós tivemos agora um tarifaço. Não faltou choque, aqueles choques que não têm muito a ver com o sistema econômico. A boa notícia: o FMI tem projetado uma trajetória mais estável para esses preços do que fora, por exemplo, nos últimos cinco anos. Ainda assim, essa volatilidade, talvez numa intensidade menor que nos últimos cinco anos, deve permanecer presente. Na realidade, quando observamos a série histórica, essa volatilidade passou a aumentar a partir do final dos anos 2000. Conforme temos um aumento de liquidez, ou seja, uma quantidade de dólar em circulação no mercado internacional, diversos ativos financeiros apresentaram comportamentos mais voláteis. E jamais podemos esquecer que commodities também são uma classe de ativo financeiro. Assim como vimos nossa taxa de câmbio ficar mais volátil – começamos o ano com a taxa de câmbio na casa de R$ 6,12, em alguns períodos acima de R$ 6,20; mas, no momento em que a gente conversa, essa taxa de câmbio está operando a R$ 5,30, às vezes abaixo disso. Nós estamos falando de uma queda de quase R$ 1 em menos de 12 meses. Isso é expressivo. Ou seja, essa volatilidade não é exclusiva das commodities; é uma característica dos ativos financeiros, principalmente a partir de algum ponto entre 2006/2007, intensificada pela crise financeira de 2008/2009. E esse excesso de liquidez de dólar, até agora, não conseguimos reverter. Talvez seja, como diziam durante a pandemia, um novo normal.

E, hoje, quais seriam as políticas ou medidas econômicas que poderiam ser adotadas para impulsionar ainda mais o setor agropecuário brasileiro? Bem, como reduzir o custo de produção?

Um ponto fundamental, que ajudaria todo mundo, inclusive o agro brasileiro, é o ajuste fiscal. – Mas isso pode bater na política agrícola? Infelizmente, pode. Porém,  reduzir a percepção de risco associada à economia brasileira será benéfico para todo mundo. Do outro lado, agora pensando particularmente no universo agrícola, merece destaque o programa de seguro rural ou qualquer outra política que possamos classificar como seguro rural. Estamos falando de um programa de seguro rural de verdade, um seguro rural que está associado ao que acontece dentro da lavoura, que está associado à produtividade, que não está associado exclusivamente ao crédito agrícola. É aquele seguro para o produtor conseguir, em caso de quebra de safra, manter efetivamente a capacidade de realizar os investimentos necessários para poder tocar sua atividade no próximo ciclo. E, no ambiente de mudança climática, essas quebras de safra vão ficar mais recorrentes. Aí, alguma política de seguro rural é fundamental.

Dentro dessa questão ainda de redução de custo, a terceirização dos serviços de manejo da lavoura, como aviação agrícola, pode ser uma estratégia para enfrentar os desafios dessa safra, que pega produtores, por exemplo aqui no Rio Grande do Sul, descapitalizados?

A terceirização não é algo homogêneo, não é uma solução pronta e fácil, mas a terceirização, em geral, consegue garantir redução de custos e, por outro lado, também aumentar a qualidade. – Por que aumentar a qualidade? Porque garante esforços de especialização. Não dá para imaginar que o produtor – isso vale para qualquer profissão – vai ser bom em todas as atividades que o seu processo produtivo demanda. Então, faz sentido terceirizar atividades. Parece-me que, no universo agro, do lado jurídico, a situação é um pouco mais tranquila em termos de terceirização. Havia uma tese que era muito esquisita: poderia terceirizar a atividade-meio, mas não poderia terceirizar a atividade-fim. Para o agro, não fazia o menor sentido essa divisão. A atividade-fim de uma unidade agropecuária é plantar e colher. Muitas vezes, o agricultor precisa terceirizar o plantio para que consiga fazer uso, na sua propriedade, de um maquinário mais moderno, mais sofisticado, por exemplo. Isso vale também para a colheita. Ora, então, mesmo ele terceirizando o que se chamaria de atividade-fim, esse produtor consegue produzir melhor e se concentrar talvez naquilo que seja mais importante para ele que é a tomada de decisão de como, quando e o que produzir. Em um ambiente de mão de obra escassa e cara, além de questões trabalhistas delicadas, a possibilidade de fazer uso de terceirização é uma opção, sem dúvida alguma, a ser considerada.

PERSPECTIVA
Tendo como base as projeções do FMI e os últimos cinco anos, Serigati entende que os preços das commodities devem ter uma estabilidade maior

O setor precisa de inovação e de mais infraestrutura. Que lacuna é mais urgente no momento?

Infraestrutura e inovação são demandas complementares. Uma não é substituta da outra. Óbvio que, em termos de inovação, em geral, o setor privado consegue tocar melhor. Agora, infraestrutura dependendo da escala, depende do setor público. É que a infraestrutura é um bem público. Então, são demandas distintas, em geral não são substitutas e cada uma tem o seu papel para atender às necessidades do setor.

O senhor acredita que o Brasil está investindo suficientemente em tecnologia, pesquisa, logística para transformar a produtividade do agro em renda?

Se pegarmos o agregado Brasil, a economia brasileira como um todo, a nossa taxa de investimento em proporção ao PIB é baixa comparada a outras economias emergentes. Como a economia brasileira não é uma unidade homogênea, quando abrimos isso por atividade, temos a sensação, pela venda de máquinas e equipamentos, de que esse investimento tem surgido com maior dinamismo no universo agro do que em outros setores econômicos. Pensando na realidade brasileira, a situação do agro não é a pior que existe. No entanto, ainda tem muita lição de casa para fazer. Uma parte da lição de casa é feita pelo setor privado, mas outra parte naturalmente depende do setor público.

Quais as recomendações que o senhor daria para os produtores rurais superarem os desafios do momento?

Não é a primeira nem a última vez que o universo agro vai passar por turbulências e desafios. Conseguiu chegar até aqui muito bem. Não significa que pode se sentar no sofá e ficar confortável. – O que cabe ao agente econômico? Ele não vai conseguir mudar a conjuntura. O peixinho não vai mudar as características da água do aquário em que está. Ele precisa tirar o melhor proveito possível da sua realidade. Uma forma para isso é gestão, inclusive fazendo contas. Considere essa possibilidade de terceirização para algumas atividades. Tente buscar informação, coloque na planilha ou na ponta do lápis e avalie efetivamente quais são as suas opções e quais valem a pena, mesmo que tenha que mudar um pouco. Mas, óbvio, para não fazer isso de forma, vamos dizer assim, açodada, coloque na planilha, veja os números, veja sob quais condições essa conta fecha.

PROTEÇÃO
Para economista, a competitividade de produtos agropecuários brasileiros faz com vários países levantem barreiras para manterem seus produtos atrativos no mercado

Nos próximos cinco anos, quais as perspectivas para o agro brasileiro?

Com certeza vai crescer. A demanda por produtos agropecuários do Brasil existe e é crescente, seja aqui dentro do nosso mercado, seja lá fora. Do lado da oferta, os fatores que permitiram o crescimento do agro brasileiro são estruturais, não é aquele fator conjuntural como um boom de commodities, um vento favorável. De fato, diversos produtos agropecuários brasileiros são competitivos no mercado internacional. Não é por acaso que diversas nações têm que erguer barreiras para se manterem competitivas frente ao agro brasileiro. Então, por mais que você possa ter flutuações no curto prazo, a tendência do universo agro brasileiro é de crescimento. Ainda assim, tem um recado importante. Em termos macro, óbvio que o importante é o crescimento. Porém, às vezes o importante não é se vai crescer mais ou menos acelerado, mas que essa atividade seja mais rentável para o produtor. Alguém tem que pensar em quantidade, que é o lado macro. No lado micro, cada produtor tem que pensar em rentabilidade, na sustentabilidade dessa sua atividade. Essa sustentabilidade naturalmente é econômica – a conta tem que fechar ao longo do tempo. Precisa ser ambiental, porque, desrespeitando esse atributo, você pode acabar perdendo produtividade. E vamos incluir nessa conta cada vez mais a parte de imagem. Tem que ser uma imagem que consiga sinalizar os atributos verdadeiros dos produtos agropecuários brasileiros.

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