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Evaristo de Miranda aposta em um agro feito com números, mapas e fatos

Pesquisador da Embrapa até janeiro deste ano, quando se aposentou, foi responsável pela montagem de três centros de pesquisas, contribuindo para a inovação na agricultura brasileira

Publicado em: 10/04/23, 
às 11:40
, por IBRAVAG

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“O que move a agricultura brasileira é a ciência, a inovação.” A frase é do engenheiro agrônomo e doutor em ecologia Evaristo Eduardo de Miranda, reconhecido pesquisador brasileiro cuja trajetória profissional é ligada à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Para ele, o agro brasileiro é um dos mais sustentáveis do mundo e os ataques frequentes à atividade só cessarão quando o setor passar a se comunicar melhor entre as suas diversas cadeias produtivas e com a sociedade.

Sobre o futuro, para Evaristo de Miranda, “o caminho do agronegócio é apostar cada vez mais em tecnologia”. Aí inclui a aviação agrícola, como ferramenta de trato fitossanitário das lavouras. Segundo ele, a aviação agrícola é muito relevante na aplicação de insumos, especialmente os biológicos. Por sinal, no seu livro Tons de Verde – A Sustentabilidade da Agricultura no Brasil, lançado em 2018 e já em sua terceira edição em português, dedica várias páginas à atividade.

A publicação apresenta cinco eixos da sustentabilidade no agro brasileiro e traz o papel da ferramenta aeroagrícola nesse processo de inovação das lavouras, bem como a tecnologia embarcada nas aeronaves que possibilitou um salto de qualidade nas aplicações aéreas ao longo dos anos. “O assunto foi novidade para muita gente”, pontua Miranda. O alcance da obra pode ser mensurado pela tradução para o inglês, mandarim e, recentemente, para o árabe.

Esse livro se soma a uma produção de mais de 50 títulos, muitos deles também traduzidos para o francês, italiano e espanhol, dos quais Evaristo de Miranda é autor. Porém, engana-se quem pensa que todas as suas obras estão voltadas apenas para o agro e a ecologia. Ele escreve sobre temas diversos, como humanidade, espiritualidade, fé e razão. A aptidão para a escrita, ele aperfeiçoou com a esposa, a reconhecida jornalista ambiental Liana John, falecida em julho de 2021, e com quem teve quatro filhos.

Para transitar por diferentes áreas do conhecimento, como pesquisador, escritor de livros e artigos para revistas, além dos comentários semanais no Jornal da Band, Evaristo de Miranda se vale de aprendizados adquiridos na França, onde fez a graduação em agronomia. Foi lá, segundo ele, que aprendeu a arte da organização. Lá também, ele começou a delinear a sua carreira de pesquisador. Em 1980, deixou emprego de pesquisador em Paris e chegou em Petrolina/PE, no Brasil, para montar a Embrapa Semiárido, depois a Embrapa Meio Ambiente e, por último, a Embrapa Territorial.

Assim, territorialidade da agricultura brasileira começava a ser mensurada. Em 2016, um estudo liderado por Evaristo de Miranda demonstrou: o Brasil dedicava à preservação da vegetação nativa 66,3% do seu território. O índice foi contestado em conversas periféricas, com base em dados contraditórios, sem nunca chegar ao pesquisador nenhum pedido de explicação. Em 2018, a Agência Espacial Norte-Americana (Nasa) confirmou os índices levantados pela Embrapa e no ano passado, o MapBiomas, também chegou ao mesmo número: 66,3%. Evaristo de Miranda nunca confrontou as especulações feitas em cima de narrativas e não de fatos. E brinca: “os cães ladram e a caravana passa”.

O senhor nasceu na capital paulista, como foi sua infância e o que o levou para a área da agricultura?

Evaristo de Miranda – Eu sou paulistano, mas minha família, de todos os lados, tem origem rural. Sobretudo meus avós me puseram em contato com o campo. Acabei enveredando por esse mundo. Inicialmente, eu estava interessado em economia rural. Um ilustre brasileiro me aconselhou: –Faça agronomia e depois se especialize em economia. Aí você entenderá o mundo rural. Eu acabei entrando na agronomia e nunca fui para a economia rural. Enfim, tive alguma inspiração na família e no próprio mundo rural. Eu sempre adorei a natureza, sempre tive um contato muito forte com o universo natural através de viagens, expedições e continuo tendo contato constante com os agricultores, com a realidade rural.

Os seus filhos seguiram por esse caminho?

Evaristo de Miranda – Meus filhos têm caminhos diferentes: um na publicidade, uma filha psicóloga, a outra jornalista e o menor, youtuber. Na área de comunicação, por exemplo, nos encontramos bastante e trabalhamos juntos em nossa empresa, a Camirim Editorial.

A sua esposa era jornalista?

Evaristo de Miranda – A minha esposa, Liana John, faleceu faz um ano e meio. Ela foi uma jornalista brilhante, precursora do jornalismo ambiental no Brasil. Extremamente premiada, já recebeu prêmio das mãos da princesa do Japão, da rainha da Tailândia etc. Também participou de debate dos presidenciáveis dos Estados Unidos como convidada. Publicou uma quinzena de livros e mais de 1.400 artigos. O site dela (www.lianajohn.com.br) reúne e disponibiliza grande parte de sua obra. Eu aprendi muito com ela também em termos de escrita, de edição, de comunicação, de tudo. Ela tinha um texto maravilhoso. Provocativo. Nós sempre tivemos uma grande cumplicidade em viagens de descoberta da natureza em todo o mundo e nessa área de comunicação.

Como foi sua formação na França?

Evaristo de Miranda – Eu estudei agronomia na França. Profissionalmente, foi a melhor opção. Aprendi muito. Lá ainda, me especializei em agronomia tropical. A minha formação de base foi toda na Europa, trabalhando na África. Até comecei minha carreira como pesquisador na Europa. Estava destinado a ser um pesquisador na França, já tinha até contrato. Aí apareceu um convite da Embrapa, ainda em seus inícios. Eu vim ajudar a construir um grande centro de pesquisa no sertão do Brasil e estruturar equipes de pesquisa no semiárido. A Embrapa me ofereceu trocar Paris por Petrolina em Pernambuco. E eu troquei Paris por Petrolina. Ajudei a construir esse centro, a Embrapa Semiárido. Contratamos mais de 80 pesquisadores e realizamos investimentos de mais de 50 milhões de dólares. Ajudamos a desenvolver a irrigação no Vale do Rio São Francisco. Ninguém acreditava nisso. Para muitos da região, aquilo não daria certo. Para alguns, a irrigação traria problemas, salinizaria os solos. Enfrentei muitas narrativas. Não se tratava de tecnologia do Neolítico. Era tecnologia da Embrapa. Daria certo. Hoje, o País exporta mais de um bilhão de dólares por ano de frutas frescas. É um sucesso enorme a irrigação no Vale do Rio São Francisco e no Nordeste. A tecnologia e a inovação foram fundamentais para tudo isso.

EMBRAPA TERRITORIAL: descerrando a placa de inauguração do centro de pesquisas em Campinas/SP, em dezembro de 2017. Solenidade contou com a presença do então ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Blairo Maggi, do presidente da Embrapa na época, Maurício Antônio Lopes, entre outras autoridades estaduais e municipais.
Foto: José Fernando Souza

Assim, começou a sua a trajetória dentro da Embrapa?

Evaristo de Miranda – Sim. Eu vim para a Embrapa para ajudar a construir o centro de pesquisa no semiárido. Depois, na época do ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Pedro Simon (ele assumiu a pasta em 15/03/1985 e ficou até 14/02/1986), fui convidado pela diretoria da Embrapa a participar da construção de um novo centro de pesquisa dedicado ao meio ambiente: a Embrapa Meio Ambiente, em Jaguariúna/SP. Eu participei também da contratação de pessoas, da montagem de equipes, da construção da sede, dos prédios, dos laboratórios, da aquisição de equipamentos etc. Tenho orgulho de ter participado da montagem dessas equipes em Petrolina, em Jaguariúna e, por último, também, eu participei da criação e chefiei a Embrapa Territorial, onde eu encerrei minha carreira na Embrapa. Também construímos esse centro, com uma equipe de excelência, pesquisando com instrumentos e tecnologias de ponta, como satélites, geoprocessamento e outros, a dimensão territorial da agricultura brasileira, com muito foco na sustentabilidade. O centro fica em Campinas/SP. Então, na minha carreira, eu pude participar da criação, construção, montagem de equipes e das programações de pesquisa em três centros nacionais: um em Petrolina, para o Semiárido; outro de Meio Ambiente, para o Brasil inteiro, em Jaguariúna; e depois a Embrapa Territorial, em Campinas, também para todo o Brasil. Isso me levou a conhecer a nossa agropecuária em todo território nacional. Por décadas, andei e trabalhei em todos os Estados do Brasil, várias vezes.

O que mais lhe chamou a atenção ao chegar no Brasil depois de ter estudado na França e trabalhado na África?

Evaristo de Miranda – Quando eu cheguei em Petrolina, ao falar de irrigação, plantio de uvas, melão etc., muitos diziam: – não vai dar certo. Para eles aquela tecnologia não era adequada ao povo da região. Essas inovações não correspondiam à cultura local, não estavam adaptadas ao homem do semiárido. Havia um descrédito com a ciência, muito grande. Ainda há esse descrédito, essa desconfiança. É preciso investir muito mais em ciência, acreditar no quanto ela é transformadora e no quanto a inovação pode trazer ganhos enormes. Eu sempre enfrentei narrativas sem base científica. Pessoas sem argumentos e cheias de convicções. Elas não querem argumentos. Você não consegue nem dialogar. Se para elas os agrotóxicos estão envenenando os brasileiros, não adianta chegar com argumentos. Elas têm convicções, certezas. Quem tem convicções, não está aberto a um diálogo. Enquanto o agro é superdefendido nos outros países pela população e pela opinião pública, aqui existe uma campanha sistemática de agressão. O agro brasileiro é atacado de forma injusta, com narrativas sem base na realidade. Isso sempre me surpreendeu. Eu tentei trazer em números, mapas, fatos, dados. Eu gosto muito de um pesquisador americano de estatística, importante na reconstrução industrial do Japão no pós-guerra. Ele se chamava (William) Edwards Deming e tem uma frase fantástica: “In God we trust, all others must bring data (1)” – “Em Deus acreditamos, o resto deve apresentar dados”.

(1) In God we trust usado por William Edwards Deming em sua frase é um dos lemas dos Estados Unidos.

O Texto Base da Campanha da Fraternidade 2023, desenvolvida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que traz como tema Fraternidade e Fome, aponta que o Brasil é campeão mundial de uso de defensivos agrícolas e uma grande variedade de agrotóxicos são aplicados por aviões agrícolas que voam perto das casas, escolas, enfim, próximo às comunidades. Isso não é um sintoma dessa desinformação?

Evaristo de Miranda – É um exemplo típico. Você vê um texto base como esse da Campanha da Fraternidade afirmando conclusões sem dados, sem fontes respeitáveis. Ele ataca o agro com narrativas. Não é um trabalho adequado. Não é uma visão polissêmica de uma realidade complexa e dinâmica, algo a ser esperado de pastores, dos bispos, cujo rebanho é diverso. O texto base chega com convicções. Ele não vem para discutir, para tentar entender assuntos complexos. Antes de condenar ou justificar é necessário entender os processos e a complexidade das coisas. Trabalhar com dados, com fatos e fontes seguras, científicas, confiáveis. A Embrapa é isso. A Embrapa é numbers, maps and facts. Eu trabalhei com isso, tentei trazer números, dados e muitos mapas. Eu dou muitas palestras, convidado pelo agro. Agora mesmo, estava em Palmas, no Tocantins. Logo irei a Alexânia e depois a Jataí/GO para encontros e palestras. Vou a vários lugares do Brasil, sempre levando dados. Eu tenho um programa na TV Bandeirantes, escrevo na Revista Oeste a cada 15 dias, apresentando dados, números e análises. As pessoas falam da agricultura brasileira sem ter ideia do seu tamanho e dinâmica. Um dado: o agro produz e o Brasil consome 1.800 ovos por segundo. Como isso é possível? Com inovação.

É uma grandeza…

Evaristo de Miranda – Os críticos do agro têm ideia do necessário para atender esse consumo de ovos? O quanto investimos em rações, sistemas de alimentação, vacinas, seleção genética de galinhas, instalações, logística? Eles não têm ideia, falam sem saber do que estão falando. O agro tem dificuldade de comunicar suas informações, seus dados à sociedade urbana. Eu quando sou convidado para fazer uma palestra e em meus livros e artigos, tento trazer fatos, números, realidades atualizadas e não apenas narrativas.

Da França, o que o senhor trouxe para cá?

Evaristo de Miranda – Para a minha vida pessoal foi a organização. Quando falei a D. Paulo Evaristo Arns, na época cardeal de São Paulo, hoje falecido, sobre minha viagem à França, ele disse: – Você vai aprender a se organizar. Eu esperava um comentário sobre possibilidades de estudos, de formação em disciplinas e especialidades científicas inexistentes por aqui. Não. Ele me falou de organização. Eu anotei essa frase. Coisa estranha, ele me falar isso. Hoje, eu lhe dou plena razão. Se algo eu aprendi na Europa, foi a me organizar. As pessoas falam: – Como você consegue escrever artigos, manter programa na tevê, fazer entrevistas, dar palestras, cuidar da família, jogar badminton e um monte de coisas? Eu devo isto a uma certa capacidade de organização adquirida na Europa.

E para a agricultura brasileira o que veio de lá?

Evaristo de Miranda – Vieram as bases científicas. O agrônomo estuda as leis que regem a produção vegetal e a produção animal. Essas leis têm a ver com as interações clima, solo, planta e técnicas culturais. Essa abordagem cientifica foi essencial, me ajudou na compreensão do semiárido. Eu pude trabalhar com muitas cadeias produtivas – soja, milho, algodão, fruticultura – sempre tendo uma base sólida de formação de agrônomo e de campo. É uma base experimental. Você formula perguntas e a natureza responde. Às vezes, não sabemos fazer as perguntas certas. Às vezes, não sabemos interpretar as respostas. Porém, os dispositivos experimentais, na Embrapa e nas universidades, são verdadeiros instrumentos de formulação de perguntas. Testam-se hipóteses. E a natureza responde. Não se pode ser só teórico. Quando eu falo da pulverização aérea, do tamanho das gotículas, da deriva etc, eu formulo uma hipótese e a testo no campo. Eu tenho como medir as coisas e ver se aquilo acontece ou não. A agricultura brasileira não é movida a tratores, nem a aviões, ela é movida à ciência. Hoje, a ciência move a agricultura brasileira. Cada vez mais, eu agradeço a minha formação científica. Ela me ajuda até hoje. É difícil um dia sem recorrer a algo aprendido naquele tempo de formação. Teve algumas coisas diferenciadas por lá. Fiz quatro anos de informática na agricultura e quatro anos de estatística. Aqui não é assim. Dei aula na pós-graduação da USP (Universidade de São Paulo) em duas disciplinas diferentes de estatística. No Brasil, temos excelentes escolas de agronomia, formando excelentes agrônomos. Esse profissional precisa ser ainda mais valorizado no Brasil. Ele é um dos elos essenciais entre a inovação e o produtor.

DESCANSO: parada embaixo da figueira para uma prosa com o amigo Gilles Lapouge, jornalista e escritor francês falecido em 2020.
Foto: Acervo Evaristo de Miranda

Como foi a ida para a África, foi um estágio?

Evaristo de Miranda – Eu consegui estágios na África. Em 1976, aconteceu uma seca muito grande na África. A Europa ajudava com alimentos, dinheiro, medicamentos e decidiu ajudar também com ciência. Eles propuseram um programa de pesquisa e financiamentos sobre os problemas da agricultura e da seca no sul do Saara. Eu participei com uma equipe. Propus um projeto para estudar a relação entre os desequilíbrios agrícolas e ecológicos na região semiárida da África. Foi resultado do vigor e do lado um pouco delirante da juventude. Apresentei um projeto pretencioso. Hoje, talvez, eu nem sei se teria coragem de fazer uma coisa dessas. Na época, eu tive. Meu projeto andou e foi aprovado em várias instâncias. No fim da linha me chamaram para uma sustentação oral em Paris. Eu fui para lá. Cheguei cedo, era perto do Arc du Triomphe (Arco do Triunfo). Entrei na sala. Eu usava barba e cabelos compridos na época. Um senhor me falou: – Olha, a reunião dos estagiários é no outro prédio. Aqui, um cientista virá agora defender uma proposta. Eu tremi nos joelhos. Onde eu fui me meter (sorri). Afinal, apresentei e tive sucesso. Contratei agrônomos, técnicos agrícolas e trabalhei vários anos no Níger (2). Serviu para o meu mestrado e doutorado. Aprendi a língua local, o hauçá, o idioma dessa região africana. Fiz algumas inovações, com essa equipe é claro, todo mundo junto.

(1) República do Níger, país da África Ocidental, faz fronteira com a Argélia e Líbia ao norte, ao leste com Chade, a sul com a Nigéria e Benim e a oeste com Burquina Fasso e Mali. O país abrange uma área de quase 1.270.000 km², com mais de 75% de sua área de terra coberta pelo deserto do Saara.

Quando você se viu pesquisador?

Evaristo de Miranda – Eu estava com uma carreira desenhada na Europa. Contratado como pesquisador, ganhava bem. Era uma carreira para a vida. Estava tudo certinho. Um dia, um colega francês me disse: – Esta semana, o diretor vai receber um dirigente do teu País, do Brasil. Pode ser que o diretor – ele falou assim hipoteticamente – diga que na equipe dos pesquisadores aqui da França tem um brasileiro. E talvez, ele vai querer te apresentar. Pode ser que nem aconteça nada. Então, na quarta-feira, não deixe de estar aí. Eu trabalhava muito com computadores, com imagens de satélite, cartografia digital, algo ainda incipiente no Brasil. Quarta-feira, estou lá no meio dos satélites, quando vejo vir o diretor com alguém ao lado. Pelo jeito, pela roupa, pensei, esse é brasileiro. Ele chegou para mim e me falou em mineiro: – Ó, ocê tá fazendo o quê aqui? Eu apresentei minhas pesquisas sobre a agricultura no semiárido etc. direto para ele, em português. Quando acabei e ele me falou: – Pode parar. Ocê vai trabalhar na Embrapa, no Brasil. Eu falei, não. Imagine… pois é. Um mês e meio depois eu estava contratado e vindo para o Brasil.

AVANÇO: chefe geral da Embrapa Territorial, Evaristo de Miranda, durante o lançamento do plano de macrologística para a agropecuária em março de 2018.
Foto: José Cruz/Agência Brasil

Quem era esse brasileiro?

Evaristo de Miranda – Era dr. Eliseu Alves (3), presidente da Embrapa, um dos seus fundadores. Depois, ele me ligou e disse: –Você vai montar um centro de pesquisa para nós. Eu falei: – Tem gente, pesquisadores por lá? Ele falou: – Não, não tem. – E eu vou poder contratar? Quantos PhDs eu posso contratar? Ele falou: – Se você encontrar 100 PhDs, eu contrato todos. Podem ser da Índia, da China, de onde for, arruma e eu contrato. E contratou mesmo. Nós contratamos 80, mais ou menos. Depois, eu perguntei se tinha dinheiro para fazer o centro e quanto. Lembro dele falando no singular: – 50 milhão. Eu falei: – 50 milhões? Ele agregou: – De dólar. Eu repliquei: – Estou indo. E vim e não me arrependo. Eu tenho um apreço muito grande pela equipe do dr. Eliseu e por esses fundadores da Embrapa. Eles me permitiram fazer toda uma carreira muito próxima do produtor rural, das realidades do campo e de seus desafios, não das narrativas, do real no dia a dia do produtor e da produção. Isso é que me interessa.

(3) Eliseu Roberto de Andrade Alves um dos fundadores da Embrapa, integrou a primeira diretoria-executiva da empresa de pesquisa entre 1973 e 1979, quando passou a atuar como presidente – cargo que ocupou até 1985. No período entre 1985 e 1990, comandou a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf). Em 1990, passou a atuar como assessor da Presidência da Embrapa. Aposentou-se da Embrapa, em janeiro deste ano, aos 92 anos de idade, na mesma ocasião do dr. Evaristo de Miranda.

RECONHECIMENTO: Evaristo de Miranda recebe o Prêmio CNA Agro Brasil 2018 pelo seu trabalho como pesquisador, com destaque para o estudo sobre a realidade das áreas ocupadas pela agricultura brasileira, liderado por ele na Embrapa Territorial, apresentado em 2017. O prêmio foi entregue em 4 dezembro de 2018 pelo vice-presidente de Finanças da CNA, José Zeferino Pedroso.
Foto: Tony Oliveira/Trilux

Foi por isso que a Embrapa se notabilizou pelos grandes nomes no seu quadro de pesquisadores?

Evaristo de Miranda – A Embrapa é uma instituição onde a maioria veste a camisa. É organizada. Agora ao me aposentar, ajudou a preparar a saída. Você participa de comitês, comissões, conselhos. Claro, você pode sair disso tudo mandando um e-mail. Outra coisa é esperar a data certa; ir lá na reunião regular do conselho; falar isso pessoalmente; deixar a indicação de alguém para eles convidarem para o seu lugar. Eu duvido de outra estatal capaz de fazer alguma coisa dessas quando alguém do quadro vai sair. Ela organiza esse processo. E mesmo depois de sair, ainda por um tempo, se pode continuar ajustando pequenas coisas. É uma instituição de muita qualidade institucional e compliance, diferenciada. Os brasileiros têm orgulho da Embrapa. Toda a proporção guardada, a Embrapa é como a Nasa para os Estados Unidos. Os americanos falam da Nasa (Agência Espacial Norte-Americana). No Brasil, você fala do quê? Da Embrapa. Se tem um órgão de estado de pesquisa do qual se orgulha todo o País é a Embrapa. Enfim, no Brasil, a agricultura é movida a ciência. E a Embrapa contribuiu para isso. Claro, universidades e empresas privadas inovam, pesquisam, investem até mais que a Embrapa em certos campos. Contudo, a Embrapa teve esse papel e continuará tendo, creio. A Embrapa completa 50 anos neste abril.

LANÇAMENTO: Bate-papo com o jornalista e apresentador Fernando Kassab na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi em Campinas/SP, em setembro de 2015, sobre o livro A Geografia da Pele, sobre o seu período como pesquisador na República do Níger.
Foto: Noelly Castro

Apesar de sempre ter trabalhado com base científica, o levantamento sobre a área ocupada pela agricultura no Brasil desenvolvido pelo Grupo de Inteligência Territorial Estratégica (Gite) da Embrapa Territorial concluído no final de 2016 e apresentado no início de 2017 gerou polêmica. No entanto, em 2018, a Nasa confirmou os dados da Embrapa. Por que nossas pesquisas ainda precisam ser validadas por agências externas, apesar de todo o reconhecimento da Embrapa? É um sentimento de inferioridade?

Evaristo de Miranda – Tem essa síndrome do vira-lata, falada pelo dramaturgo Nelson Rodrigues. Eu não acho que seja apenas a síndrome de vira-lata, não. Muitas pessoas vivem de vender uma espécie de terrorismo verde sobre a agricultura e são especializados em más notícias. Só dão más notícias sobre a agricultura, frequentemente, sem muita base. Quando vem um estudo e desmonta essas construções e até o modo de vida de algumas dessas pessoas, elas ficam chateadas. Você disse muito bem: é o trabalho de um grupo. Eu participei, coordenei, liderei, mas é o trabalho de uma equipe. Os dados estão lá, são públicos e abertos. Por exemplo, a revelação de um Brasil dedicando à vegetação nativa 66,3% do seu território perturbou alguns. Ia contra uma certa narrativa da destruição ampla, geral e irrestrita. Para alguns não era bem assim, era menos, era isso, era aquilo. Nunca ninguém apresentou um dado sólido para se contrapor. Se a pessoa chegasse e falasse para nossa equipe: – Vocês erraram lá na Paraíba em Picuí ou em Canarana no Mato Grosso. Iriamos corrigir. Onde estão os erros? Os dados estão disponíveis na Embrapa por município. Para cada município brasileiro: quantos imóveis rurais, quanto em APPs – Área de Preservação Permanente, em reserva legal e vegetação excedente. Alguém poderia mostrar dados e mapas divergentes: em Humaitá no Amazonas não é assim ou em Cruz Alta no Rio Grande do Sul, seus dados estão errados. Não. Falam de forma genérica. Não apresentam números ou mapas. Não contestam com fatos. Nunca uma pessoa me contestou, diretamente. Nunca escreveu um artigo mostrando o contrário ou mandaram um questionamento escrito. É sempre uma falação periférica. Daí a frase, os cães ladram e a caravana passa. Hoje esses dados estão totalmente confirmados. O estudo era bem amplo. Partes foram confirmadas pelo Censo Agropecuário em 2017. Hoje, o Projeto MapBiomas, um trabalho de ONGs no Rio de Janeiro, apresenta para o total de vegetação nativa no Brasil 66,3% do território. Com o tempo, por outros caminhos, por outros métodos, pessoas chegaram ao mesmo resultado. É interessante quando outras instituições trabalham de outra maneira e confirmam seu resultado. Quando não confirmam, também é bom. Deve-se procurar entender onde houve divergência e o porquê. Às vezes, criticam a duplicidade na pesquisa. A duplicidade não é sempre ruim, não. Ela permite confrontar métodos e resultados.

LEMBRANÇA: ao lado do chefe tuaregue, Tambari Agali, com quem conversava em hauça, sobre suas pesquisas no Níger, país africano ao sul do deserto Sahara.
Foto: Reprodução livro A Geografia da Pele

O mercado externo exige uma produção dentro dos parâmetros da sustentabilidade ambiental, econômica e social, os produtores brasileiros estão neste caminho?

Evaristo de Miranda – O Brasil é líder mundial nisso. Não há nenhum país com uma agricultura sustentável como a nossa. É uma agricultura de alta produtividade, de alto desempenho. Ela cuida bem dos solos, cuida bem das águas, cuida bem da biodiversidade. Planta 40 milhões de hectares sem arar a terra em plantio direto; armazena carbono no solo; planta mais de 40 milhões de hectares de soja sem usar adubo nitrogenado, ao contrário dos americanos, usa Rhizobium, bactéria fixadora de nitrogênio. Em termos de mundo, a agricultura brasileira é campeã no uso do controle biológico. É quem mais pratica o plantio direto e menos usa combustível para produzir qualquer cultura. Então, é uma agricultura inovadora e muito sofisticada e, até por isso, muito atacada. Acaba de sair (início de março) um relatório desenvolvido pela McKinsey (consultoria norte-americana) comparando as agriculturas do mundo, no tema sustentabilidade. A agricultura brasileira é a primeira. No entanto, é tratada como se fosse uma criminosa, como se estivesse destruindo tudo, por alguns e suas narrativas.

DESENVOLVIMENTO: em reunião coordenada pela ministra Tereza Cristina e com o então presidente da Embrapa, Sebastião Barbosa, para apresentar uma análise territorial dos projetos desenvolvidos pelo Mapa na região semiárida do Nordeste.
Foto: Mapa/Guilherme Martimon

A que se deve isso?

Evaristo de Miranda – A agricultura tem dificuldade de comunicação. E, também, não investe nisso, parece ter escorpião no bolso, não quer gastar com comunicação. Nessa fase de aposentado da Embrapa, estou me dedicando a trabalhar com a comunicação no agro. As cadeias produtivas não se conhecem entre si. Se for falar para o público urbano sobre a semeadura com drones; pulverização de ultrabaixo volume de princípios ativos com drones; sobre as inovações acontecendo e a transformação da aviação agrícola trazida até pelos drones, ninguém acreditará. A própria aviação continua evoluindo, pouca gente sabe sobre isso. Eu tenho convites para palestras este ano em eventos de entidades de classe. Eu levo a todos uma visão mais ampla do que é a agropecuária brasileira, de sua sustentabilidade. Precisa começar falando primeiro dentro do próprio agro. É importante isso. Eu tenho também um programa de entrevistas no Canal AgroMais, chamado Brasil Verde; eu sou comentarista no Jornal da Band na segunda-feira e escrevo para a Revista Oeste. Enfim, trabalho e pretendo nestes anos agora, com muito prazer, explorar ainda mais esse lado de palestras, de consultoria de comunicação em coisas prazerosas de fazer e tão necessárias. Pretendo continuar próximo dos produtores, continuar visitando o meio rural. Toda a semana tenho convites de produtores. Eu gosto de estar presente no campo, vendo a realidade deles. Ver as coisas acontecerem, a dinâmica das lavouras. E, ao mesmo tempo, levar ao público urbano a mensagem do quanto, no Brasil, a inovação, a rentabilidade e a sustentabilidade são sinônimos. Falar de sustentabilidade, falar de inovação, falar de rentabilidade é falar da mesma coisa. Não dá para ter uma, sem a outra. Continuaremos nisso e há muito ainda para avançar, com certeza, sobretudo na pecuária.

COMPARTILHANDO CONHECIMENTO: palestra “Atribuição, ocupação e uso de terras no Brasil – situação atual, ameaças e desafios”, no Ministério da Defesa, dentro do projeto “Expandindo os Caminhos da Defesa”, coordenado pela Escola Superior de Guerra (ESG), em 2021.
Foto: Igor Soares

Falando em aviação agrícola, ela sofre com preconceitos da sociedade. De tempos em tempos, há ações querendo proibir a ferramenta em algum estado, como aconteceu no Ceará, mesmo sendo uma atividade altamente regulamentada e fiscalizada.

Evaristo de Miranda – Eu vi o setor (aeroagrícola) discutir isso. Não vi o setor se comunicar com a sociedade de forma eficiente, destacando o quanto a aviação agrícola é quem viabiliza a redução do uso de pesticidas. É a aviação agrícola quem pulveriza Metarhizium na cana-de-açúcar e tantos outros vetores de controle biológico para controlar lagartas e outras pestes. Então você vai proibir a aviação agrícola? Quer dizer: você quebra o termômetro para dizer que não tem febre. No meu ponto de vista, esse debate da proibição da aviação agrícola é uma grande oportunidade para ridiculizar o que foi feito de forma equivocada. Ocasião boa para mostrar a realidade e como há gente ignorante cujos atos têm graves consequências. Em castelhano, eles dizem: – La ignorância es audaciosa! E é mesmo. A aviação talvez precise ter uma estratégia mais elaborada sobre isso, de informação constante.

PESQUISA: registro na sala da Embrapa Territorial com demais pesquisadores avaliando mapa resultante de pesquisas em andamento

O caminho para sair desse looping qual seria?

Evaristo de Miranda – Esse assunto deveria ser tratado em outro patamar. Você tem de chegar na opinião pública. Há várias formas de fazer isso. Um programa de pelo menos um ano, com uma série de ações. E aí, sim, também chegar aos legisladores e ao judiciário. Isso merece um debate mais profundo e o fórum aqui não é adequado.

Quais os caminhos para a agricultura brasileira, lembrando que foi graças a pesquisa que o Brasil tem alta produtividade sem precisar avançar as fronteiras agrícolas?

Evaristo de Miranda – O que move a agricultura é a ciência, a inovação. A adoção da inovação traz renda e sustentabilidade. Setenta por cento da renda do produtor vem da inovação; 30%, do tamanho da terra e da mão-de-obra. Vários estudos da Embrapa mostram isso, feitos com os dados dos censos agropecuários de 2006 e de 2017. O caminho é apostar na tecnologia. Não se trata de voltar ao Neolítico para fazer agricultura sustentável. É usando bem e melhor a ciência. A aviação agrícola entra nesse âmbito. O Brasil é pioneiro e é de ponta em várias coisas nessa área. Ela cumpre um papel não só na distribuição de defensivos e em aplicação, mas também numa série de modalidades do controle biológico. E isso deveria ser destacado também.

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