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Dados e ciência contra as perdas na lavoura

Após concluir pós-doutorado nos EUA, João Paulo Cunha analisa os avanços que estão tornando a aplicação de defensivos mais precisa, eficiente e segura

Publicado em: 21/07/26, 
às 14:04, 
por IBRAVAG

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Reconhecido nacional e internacionalmente pelos estudos sobre tecnologia de aplicação, deriva e eficiência operacional, o engenheiro agrícola João Paulo Arantes Rodrigues da Cunha destaca os avanços tecnológicos que vêm transformando o manejo fitossanitário em operações cada vez mais seguras. Pesquisador e professor da graduação e pós-graduação da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), ele está de volta ao Brasil após concluir, em maio, o pós-doutorado na The Ohio State University, nos Estados Unidos, onde desenvolveu pesquisa voltada ao aprimoramento das técnicas de pulverização na cultura da soja — uma das principais commodities agrícolas do mundo.

Cunha já havia realizado um pós-doutorado em Tecnologia de Aplicação de Produtos Fitossanitários na Espanha, no Institut Valencià d’Investigacions Agràries, em 2012. Agora, encerra mais um ciclo de pesquisas em uma das mais conceituadas instituições norte-americanas da área agrícola. O trabalho desenvolvido em Ohio investigou formas de aumentar a deposição de produtos fitossanitários ao longo do dossel da soja, com o objetivo de elevar a eficiência das aplicações e reduzir perdas econômicas e impactos ambientais.

Na entrevista à Revista Aviação Agrícola, Cunha mostra por que a tecnologia de aplicação deixou de ser apenas uma questão de equipamentos para se tornar uma ciência estratégica, capaz de conciliar produtividade, sustentabilidade e segurança operacional em um cenário cada vez mais orientado por dados, automação e precisão. Ao abordar a questão da deriva, ressalta que a combinação entre tecnologia e capacitação dos profissionais envolvidos é fundamental para garantir operações ambientalmente seguras e tecnicamente eficientes.

“A ciência de dados ganhou uma dimensão muito grande e está transformando a agricultura, possibilitando aplicações aéreas não apenas eficazes, mas também precisas, eficientes e sustentáveis”, afirma. Diante das novas tecnologias e do avanço das pesquisas, o professor também questiona as distâncias mínimas estabelecidas em lei para mananciais hídricos, povoados e outras áreas sensíveis.

A exemplo do que ocorre em outros países, Cunha defende que essas faixas não deveriam ser fixas. Para cumprir sua finalidade, as chamadas buffer zones precisam estar relacionadas ao risco de cada aplicação. Para definir esse risco, reforça a necessidade de investimentos em pesquisas capazes de gerar subsídios técnicos para o estabelecimento de faixas de segurança compatíveis com a realidade operacional, evitando que sejam definidas por critérios arbitrários.

O que despertou seu interesse pela tecnologia de aplicação de produtos fitossanitários ainda no início da carreira?

O meu primeiro contato com a tecnologia de aplicação, mais especificamente com a aplicação aérea, ocorreu durante a graduação em Engenharia Agrícola. Eu me formei na Universidade Federal de Lavras (Ufla), em Minas Gerais, e, logo no início do curso, tive a sorte e a alegria de ter aulas com o professor Wellington Pereira Alencar de Carvalho, que estava chegando do Cenea* e começou a ministrar cursos de aplicação aérea na instituição. Como sempre estive ligado ao estudo de máquinas agrícolas, ao ter contato com a aplicação aérea, resolvi reunir esses interesses tanto no mestrado quanto no doutorado. Depois, fui para a Universidade Federal de Viçosa (UFV), onde fiz as pós-graduações trabalhando com tecnologia de aplicação.

*Cenea é a sigla de Centro Nacional de Engenharia Agrícola, criado pelo governo federal na década de 1970, com sede na Fazenda Ipanema, em Iperó/SP, tendo sido responsável pela formação das primeiras turmas do Curso de Aviação Agrícola (Cavag), que funcionou no local até o início dos anos 1990.

O senhor, ao longo da sua trajetória, vem trabalhando com a questão da deriva, que é considerada o calcanhar de Aquiles do setor. Qual foi sua motivação para se aprofundar nessa área?

Eu atuo na área da tecnologia de aplicação desde que me formei e, dentro desse grande ramo, existe uma preocupação constante em fazer o produto chegar ao alvo. Trabalho com aplicação terrestre e aérea e, nos dois casos, existe uma cobrança muito grande em relação à deriva. Então, tenho realizado diversos estudos para mostrar o que é a deriva, quando ela ocorre, quando não ocorre e como podemos minimizar os fatores que a provocam.

Ao longo dos seus quase 30 anos dedicados à tecnologia de aplicação, inclusive com pós-doutorado na Espanha e nos Estados Unidos, o que se tem avançado nessa questão tão sensível, especialmente quando falamos de aplicação aérea?

A deriva é um problema que não existe apenas no Brasil, mas no mundo inteiro, porque está diretamente ligada à eficiência da aplicação. No entanto, principalmente nos últimos anos, estamos passando por uma verdadeira revolução do ponto de vista tecnológico. A ciência de dados ganhou uma dimensão muito grande e está fazendo uma transformação na agricultura, possibilitando aplicações aéreas não apenas eficazes, mas também precisas, eficientes e sustentáveis. A análise de dados, tanto para a aplicação terrestre quanto para a aérea, melhora significativamente a tomada de decisão no campo. Isso reduz desperdícios nas operações.

O senhor distingue entre aplicação eficaz e eficiente. Por quê?

Eu gosto sempre de chamar a atenção para a diferença entre uma aplicação eficaz e uma aplicação eficiente. O que é uma aplicação eficaz? É aquela que atinge o seu objetivo, mas que pode ou não ser eficiente. A eficiência ocorre quando, além de alcançar o resultado esperado — como controlar uma praga ou uma doença —, os recursos são utilizados de forma otimizada. Nesse caso, reduzimos desperdícios, custos e impactos ambientais. Portanto, é mais do que ser eficaz: é ser eficiente. E é justamente aí que entra toda a relação com a deriva. Afinal, a deriva representa perda de produto. Isto é: estou aplicando um produto e ele não está chegando ao alvo.

Por que há denúncias de deriva, principalmente quando se fala em aplicação aérea, que acabam sendo improcedentes após uma análise técnica? O que o produtor e a sociedade precisam entender melhor sobre a aplicação aérea e a questão da deriva?

Primeiramente, é preciso deixar claro o que é deriva. Essa perda de produto pode ocorrer em qualquer modalidade de aplicação, tanto aérea quanto terrestre. E esse é o ponto-chave. O que percebemos hoje é a existência de um pré-conceito, ou seja, de um conceito formado antes do devido entendimento técnico. Muitas pessoas fazem afirmações sem conhecer o assunto. Observamos que, muitas vezes, quando se quer criticar a agricultura ou uma aplicação de defensivos, há uma associação imediata com a aplicação aérea, como se existisse uma relação direta entre aviação agrícola e deriva. O que a pesquisa vem demonstrando é que, quando utilizamos técnicas adequadas, conseguimos minimizar ao máximo o risco de deriva. O que nos causa desconforto é essa associação automática entre aplicação aérea e deriva porque isso não corresponde à realidade.

SUSTENTABILIDADE
Nos Estados Unidos, Cunha dedicou-se ao aprimoramento das técnicas de pulverização na cultura da soja, com o propósito de aumentar a eficiência das aplicações e reduzir perdas econômicas e impactos ambientais

Qual é hoje o maior desafio da aplicação fitossanitária no Brasil?

Existem desafios do ponto de vista técnico e, também, do ponto de vista da legislação. Vamos nos ater aqui ao aspecto técnico. Inclusive, o Brasil possui algumas especificidades em tecnologia da aplicação que diferem das encontradas em outros países e que precisam ser bem administradas. Somos um país tropical, além disso, temos a questão das misturas de produtos em tanque. Fatores que exigem domínio técnico para que o produto chegue ao alvo da melhor forma possível. Dentro desse contexto, um dos grandes desafios é a formação de mão de obra qualificada. Sou professor do curso de Agronomia e percebo que muitos estudantes concluem a graduação sem conhecer realmente a aplicação aérea. Isso dificulta a atuação no campo. Resumindo, acredito que a grande questão atualmente, independentemente da modalidade de aplicação, é utilizar a tecnologia de aplicação para garantir que o produto atinja o alvo da forma mais adequada possível, sem perdas, sem contaminação ambiental e sem riscos às pessoas envolvidas na operação. Esse é o grande desafio. Obviamente, se conseguirmos administrá-lo por meio de técnica adequada e formação qualificada, teremos aplicações cada vez mais seguras. Contudo, não é uma tarefa simples, especialmente em um país de dimensões continentais como o Brasil, onde precisamos lidar com realidades muito distintas e longas distâncias.

Aqui no Brasil, quando falamos em legislação, são previstas distâncias mínimas de mananciais hídricos, povoados e outras áreas sensíveis. Como funciona essa questão das zonas de segurança em outros países?

As buffer zones, ou zonas de segurança, são faixas normalmente estabelecidas para determinadas tecnologias de aplicação com o objetivo de aumentar ainda mais a segurança operacional. O principal ponto que precisamos compreender é que essas faixas não deveriam ser fixas, pois estão diretamente relacionadas ao risco da aplicação. E aqui não estou me referindo apenas à aplicação aérea. O estabelecimento de faixas de segurança deveria ser fundamentado em estudos técnicos capazes de comprovar sua necessidade e definir adequadamente sua dimensão. Na Alemanha, por exemplo, já há bastante tempo são adotadas diferentes larguras de faixas de segurança para aplicações terrestres, conforme a tecnologia empregada. Em outras palavras, se utilizarmos uma técnica que possa gerar deriva maior, a zona de segurança aumenta. Se utilizarmos tecnologias capazes de reduzir a deriva, a buffer zone pode ser reduzida. Obviamente, isso exige pesquisa. Hoje, entendemos que ainda precisamos avançar muito nessa área. É necessário investir em estudos que gerem subsídios técnicos para estabelecer faixas de segurança reais, evitando que essas distâncias sejam definidas por critérios arbitrários. Eu até deixo uma reflexão aqui: as faixas de 250 ou 500 metros, ou mesmo as distâncias previstas para operações com drones, foram estabelecidas com base em estudos técnicos suficientes? Será que esses números realmente atendem às necessidades? Será que deveriam ser maiores ou menores? A resposta depende da técnica utilizada. Se realizo uma aplicação aérea empregando tecnologias de redução de deriva — com adjuvantes e sistemas específicos para esse fim —, talvez eu não precise de toda essa distância, pois já estou realizando uma operação mais segura. Por outro lado, podem ser insuficientes em aplicações mal-executadas ou sem a utilização adequada de técnicas de mitigação de deriva. Por isso, é extremamente importante ampliar a pesquisa para definir essas distâncias de forma compatível com a nossa realidade.

O senhor falou na resposta anterior que hoje existe tecnologia capaz de reduzir os riscos da deriva, desde que começou a trabalhar com tecnologia de aplicação em 1998, quais foram as principais transformações tecnológicas que o senhor acompanhou na área de aplicação aérea?

Do final da década de 1990 para cá, realmente percebemos que ocorreu um avanço bastante grande, principalmente quando pensamos nas novas tecnologias. O que temos visto hoje são aplicativos, sensores e mecanismos de automação nas aeronaves agrícolas. São ferramentas colocadas à disposição do piloto agrícola para que possa, de fato, realizar uma aplicação segura. E isso começa desde o planejamento. Atualmente, temos uma série de aplicativos que nos permitem planejar melhor a aplicação, utilizando os próprios dispositivos de geolocalização. Assim, o piloto consegue ter uma ideia bastante clara do serviço que precisa executar e de quais são as áreas de risco da aplicação. Também dispomos de ferramentas que nos permitem acompanhar, em tempo real, o serviço que está sendo realizado. Hoje, temos aeronaves agrícolas com um nível tecnológico muito superior ao de 28 anos atrás. Temos observado, no Brasil e no exterior, sistemas automatizados de abertura e fechamento de barras, sensores de identificação de plantas, DGPSs muito mais precisos do que os disponíveis há 20 anos e diversas outras tecnologias. Obviamente, todas essas ferramentas, aliadas à formação do piloto, contribuem significativamente para a segurança das operações. E, se pensarmos no planejamento, na aplicação e na pós-aplicação, também temos sistemas que nos permitem acompanhar melhor todo o processo, inclusive para dar mais segurança ao piloto. Hoje, conseguimos saber exatamente qual foi o trabalho realizado, onde o piloto aplicou e em que condições. Isso também nos dá maior garantia da qualidade do serviço porque deixamos para trás aquela história do: “– eu acho que fiz uma boa aplicação”. Com toda a ciência de dados à nossa disposição, temos condições de elaborar relatórios operacionais embasados em informações georreferenciadas sobre o que foi feito, quanto foi feito e como foi feito. Isso também proporciona mais segurança para a sociedade, permitindo que ela confie, de fato, no serviço realizado. Ainda falando de aplicação aérea, há outro capítulo que vem sendo escrito nos últimos sete ou oito anos: a questão dos drones, sistemas que são quase totalmente automatizados. Trata-se de uma tecnologia que vem crescendo bastante, e estamos estudando intensamente para compreender cada vez melhor como essa ferramenta também pode ser utilizada na aplicação aérea.

ESTUDO
O pesquisador e professor da Universidade Federal de Uberlândia concluiu em maio deste ano o pós-doutorado na The Ohio State University no câmpus de Wooster, que abriga a Ohio State ATI, a maior instituição vocacional agrícola e de ciências aplicadas dos EUA, focada em agronegócios e meio ambiente

Podemos dizer que a ciência de dados vem implementando uma nova era na aviação agrícola? Como o senhor disse anteriormente, são informações precisas que orientam as operações aéreas. É o fim do achômetro?

Exatamente. Já estamos vivendo esse conceito de agricultura de precisão, que consiste em aplicar exatamente aquilo que cada ponto da lavoura necessita. Aqui, vamos falar um pouco sobre tecnologia e inovação. Com o atual nível tecnológico de que dispomos, especialmente com os sensores inteligentes, conseguimos identificar, muitas vezes, os pontos exatos onde precisamos aplicar. Em muitas situações, conseguimos realizar aplicações apenas onde elas são realmente necessárias. E a tecnologia de aplicação aérea possui essa capacidade de realizar aplicações em taxa variável e em locais específicos. E isso começa antes mesmo da aplicação. Hoje, por exemplo, podemos utilizar imagens de satélite ou imagens captadas por drones para identificar os pontos de aplicação. Um exemplo é a identificação de áreas infestadas por plantas daninhas em lavouras de cana-de-açúcar. A partir dessas informações, geramos mapas de aplicação para tratar apenas as áreas que realmente necessitam de intervenção. Ou seja, deixamos de fazer uma aplicação homogênea em toda a área e passamos a atuar em pontos específicos. Com isso, reduzimos significativamente a quantidade aplicada de produto por hectare. Essa é uma técnica que pode ser utilizada em todos os tipos de aplicação, seja com drones, aviões ou com equipamentos terrestres. Essas ferramentas aumentam muito a eficiência da aplicação. Essa inovação não representa apenas ganho de produtividade, mas é também uma forma de reduzir impactos ambientais e promover a sustentabilidade, o que consideramos extremamente importante.

EXPERIÊNCIA
Acompanhamento de aplicação usando helicóptero com sistema de pulverização agrícola

Existe alguma tecnologia emergente que ainda recebe pouca atenção, mas pode transformar o setor nos próximos anos?

Eu acredito que tudo converge para esse conceito de agricultura de precisão de que estamos falando. A partir do momento que conseguirmos aplicar apenas a quantidade mínima necessária de produto e somente nos pontos que realmente demandam tratamento, teremos avanços significativos em sustentabilidade e, também, em rentabilidade para o agricultor. Hoje, esse ainda é um desafio, mas estamos avançando rapidamente, principalmente em função da inteligência artificial. São justamente esses sensores inteligentes que nos permitem identificar os pontos onde há doenças, pragas ou plantas daninhas. Os sistemas inteligentes vão nos ajudar a determinar onde e como devemos realizar a aplicação. Também acredito que a inteligência artificial terá um papel cada vez mais importante na tomada de decisões que exigem rapidez, especialmente durante uma aplicação aérea, seja em função de mudanças no vento, na temperatura ou na umidade do ar. Esses sistemas inteligentes, por exemplo, podem auxiliar na escolha do adjuvante mais adequado para uma determinada aplicação, no ajuste do tamanho da gota e até mesmo orientar o operador, dizendo: “– Hoje, você precisa interromper a aplicação, porque as condições climáticas não são favoráveis”. Esses sistemas vêm ganhando grande destaque nos últimos anos, chegando com muita força ao agronegócio e conquistando cada vez mais espaço também na tecnologia de aplicação. Isso ocorre porque o acesso à informação se tornou muito mais fácil. Há 20 ou 30 anos, sofríamos com a falta de informação. Hoje, enfrentamos um problema diferente: muitas vezes temos informação em excesso. Por isso, precisamos aprender a utilizar melhor esses dados. E é justamente nesse ponto que os novos sistemas inteligentes serão fundamentais, ajudando-nos a transformar grandes volumes de informação em decisões mais eficientes

O Brasil está em qual nível tecnológico em termos de aplicação aérea de defensivos quando comparado com outros países?

Fiquei um ano nos Estados Unidos e posso afirmar, com segurança, que, em termos tecnológicos, o Brasil não perde em nada para a maioria dos países do mundo. Temos à disposição as tecnologias mais modernas que vi sendo utilizadas nos Estados Unidos. Um exemplo é o Pelican*, da Pyka, que é uma novidade para os norte-americanos e já está presente no Brasil. O avanço dos drones agrícolas também já faz parte da realidade brasileira, assim como ocorre em outros países. Se analisarmos o segmento de máquinas agrícolas, tratores e implementos, também contamos com tecnologia de ponta. O que precisamos é deixar de simplesmente importar tecnologia. Precisamos tropicalizar essas tecnologias, ou seja, estudar os equipamentos e sistemas trazidos para o Brasil e compreender como utilizá-los adequadamente dentro da nossa realidade. Precisamos fazer isso porque temos condições muito diferentes das de outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, existem muitos problemas com plantas daninhas, mas menos desafios relacionados a doenças e pragas. Já no Brasil, convivemos simultaneamente com plantas daninhas, doenças e pragas.

*Pelican2 é uma aeronave agrícola autônoma, não tripulada, 100% elétrica, com capacidade para 300 litros, que começou a ser comercializada  no Brasil pela Synerjet Corp., em 31 de janeiro de 2025.

Isso depende de pesquisa. E quem financiaria esses estudos?

Dentro de todo esse cenário que estamos discutindo, fica claro que a pesquisa desempenha um papel fundamental, pois é ela que permite esclarecer melhor à sociedade como as coisas realmente funcionam. Isso é importante em qualquer área, mas especialmente na tecnologia de aplicação. Um dos grandes desafios da pesquisa atualmente é justamente o financiamento. Fazer pesquisa custa caro e, por isso, precisamos buscar recursos. Sou professor de uma universidade federal e estou inserido em um sistema que enfrenta grandes limitações orçamentárias para desenvolver pesquisa científica. Quando surge uma ideia, precisamos imediatamente pensar em sua viabilidade prática. Em outras palavras: como vamos financiar esse trabalho? Existem alguns caminhos. Podemos buscar recursos públicos ou financiamento privado. Sem entrar em questões políticas, sabemos que os recursos públicos destinados à pesquisa científica são limitados há bastante tempo. Por isso, muitas vezes, os pesquisadores precisam buscar apoio junto à iniciativa privada ou construir parcerias público-privadas para viabilizar seus projetos. E isso se torna ainda mais evidente quando falamos de aplicação aérea, seja com aeronaves tripuladas ou não tripuladas.

TREINAMENTO
Estudioso da tecnologia de aplicação, professor também já atuou como instrutor de pilotos agrícolas. Na foto, dando aula de capacitação na Guatemala

A solução passa então pela parceria público-privada? Quem seria esse elo entre as duas dimensões?

A tecnologia evolui em uma velocidade que o financiamento público, muitas vezes, não consegue acompanhar. Vou dar um exemplo. Em 2021, adquiri meu primeiro drone para pesquisa, com capacidade de dez litros. Hoje já estamos falando de drones como o T100* e, também, do Pelican, da Pyka. Para desenvolver pesquisas, precisamos que entidades como o Sindag (Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola), Ibravag (Instituto Brasileiro da Aviação Agrícola) e outras organizações atuem como elo entre os recursos públicos e privados. Cito aqui o projeto** desenvolvido pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) em parceria com o Sindag, porque considero um excelente exemplo. A entidade setorial atuou como facilitador para a obtenção de recursos e ferramentas necessárias à realização do estudo. Muitas vezes, o pesquisador precisa utilizar um avião agrícola. À primeira vista parece simples solicitar o equipamento a um operador conhecido. No entanto, a pesquisa exige disponibilidade por vários dias, enquanto a aeronave continua sendo necessária para as atividades da empresa. Esse tipo de parceria público-privada é fundamental porque fornece as ferramentas necessárias para a pesquisa. Dentro das universidades, temos conhecimento e profissionais qualificados, mas frequentemente faltam recursos materiais. Por isso, essas parcerias são essenciais para que possamos realizar pesquisas de qualidade. Existe ainda um ponto adicional que observo muito nos Estados Unidos: precisamos fortalecer a cultura científica. Fazer ciência é diferente de simplesmente realizar pesquisas. A sociedade muitas vezes enxerga o cientista como alguém isolado em um laboratório, mas isso não corresponde à realidade. Precisamos mostrar que a ciência existe para melhorar a vida das pessoas. Isso inclui, naturalmente, todo o setor agropecuário. Então, precisamos incentivar mais a produção científica. Fazer ciência no Brasil continua sendo um desafio, mas é algo indispensável para o desenvolvimento do País.

*O DJI Agras T100 é o maior e mais potente drone agrícola da DJI para operações em larga escala. Possui capacidade de pulverização de até 100 litros e rendimento diário superior a 300 hectares.

** O Projeto Redagro foi uma parceria Sindag com a Embrapa e dez universidades. Desenvolvido entre 2013 e 2017,  resultou em uma Nota Técnica destacando a segurança da aviação agrícola no trato de lavouras.

Hoje, quais são as linhas de pesquisa que mais chamam a atenção dentro da área de tecnologia de aplicação?

Não tenho dúvidas de que, atualmente, uma das áreas que mais despertam interesse é a aplicação com veículos autônomos, especialmente os drones agrícolas. Incluo nesse contexto também equipamentos como o Pelican, da Pyka, que muitos já classificam como um avião autônomo. Embora os drones agrícolas já existam há mais tempo, no Brasil sua expansão é relativamente recente. Estamos falando, em termos práticos, de aproximadamente oito anos de crescimento acelerado. Nesse curto período, tivemos que desenvolver rapidamente conhecimentos sobre volumes de aplicação, pontas de pulverização, sistemas atomizadores, alturas de voo e diversos outros parâmetros específicos dessas aeronaves não tripuladas. Foi necessário produzir uma quantidade enorme de pesquisa em pouco tempo. Avançamos bastante, mas a tecnologia continua evoluindo diariamente. Por isso, precisamos continuar investindo em pesquisa. Além dos drones, continuamos trabalhando intensamente com adjuvantes e novas pontas de pulverização, áreas que continuam gerando avanços importantes para a tecnologia de aplicação.

Qual é o maior erro técnico ainda observado nas aplicações fitossanitárias no Brasil?

Não me sinto confortável para apontar um único erro técnico como o maior de todos.  Entretanto, observamos com frequência aquilo que costumo chamar de “receita de bolo”: a repetição dos mesmos procedimentos durante cinco, oito ou dez anos, sem a busca por melhorias nos processos. Precisamos investir na capacitação das pessoas que atuam no campo. Isso vale tanto para quem prepara a calda quanto para o engenheiro agrônomo responsável pela operação. A informação existe. O desafio é fazer com que ela chegue efetivamente ao campo. Hoje, contamos com bons equipamentos para realizar aplicações seguras. Ainda assim, enfrentamos diversos desafios diários, como as misturas em tanque, os volumes de calda, a seleção adequada do tamanho de gota e a avaliação das condições meteorológicas. Faço questão de destacar que esses desafios não são exclusivos da aplicação aérea. Eles estão presentes em qualquer modalidade de aplicação. Por isso, é fundamental conscientizar todos os envolvidos — do preparador de calda ao agrônomo responsável, bem como o produtor rural — de que a tecnologia está disponível e precisa ser utilizada corretamente. Quando isso acontece, conseguimos realizar aplicações ambientalmente seguras, tecnicamente eficientes e capazes de atingir os resultados esperados.

Essa seria a fórmula para equilibrar eficiência operacional, redução de perdas e segurança ambiental durante uma aplicação, alcançando, consequentemente, a eficiência operacional?

Entendo que a eficiência começa com um planejamento bem elaborado. Esse é um ponto fundamental. Aqui vale mencionar o Programa de Certificação Aeroagrícola Sustentável (CAS), criado em 2013, que reforça justamente a importância do planejamento. Não é possível chegar a uma pista às 5 horas da manhã e perguntar o que será feito naquele dia. Seja para um avião agrícola ou para um drone, a operação precisa ser planejada com antecedência. No dia anterior, o operador deve saber qual área será tratada, quais produtos serão utilizados e quais serão as condições meteorológicas presentes. Costumo comparar essa situação à preparação de uma equipe de futebol. O jogador sabe quem será seu adversário e se prepara para enfrentá-lo. Na aplicação de defensivos ocorre exatamente o mesmo. Quando o piloto agrícola ou o operador de drone conhece previamente todas as variáveis envolvidas, consegue adotar medidas para reduzir riscos e aumentar a eficiência da operação. Primeiro vem o planejamento; depois, a execução baseada nesse planejamento; e, por fim, a pós-avaliação, por meio de relatórios operacionais que permitam compreender exatamente como a aplicação foi realizada. Quando temos essas três etapas bem-executadas, reduzimos significativamente os problemas. Na maioria das vezes, os problemas observados hoje são consequência de decisões tomadas de forma precipitada, sem análise adequada das condições envolvidas. Também é importante lembrar que muitos preconceitos em relação à aviação agrícola surgiram a partir de episódios isolados. Quando ocorre um problema específico, cria-se uma generalização equivocada de que toda aplicação aérea é inadequada. Mas não é assim. Cada caso precisa ser analisado individualmente. Se houve um problema, é necessário identificar suas causas, se foi falha operacional, falta de planejamento ou alguma condição específica. Somente a partir dessa análise, conseguimos compreender o que realmente aconteceu e evitar que situações pontuais sejam transformadas em julgamentos generalizados sobre toda a atividade.

O senhor costuma defender que a tecnologia de aplicação vai muito além do equipamento. O que falta ainda para o setor e o agro como um todo compreenderem isso?

Nós precisamos de boas ferramentas. O equipamento, seja um avião, seja um pulverizador terrestre, precisa ser utilizado corretamente. Eu tenho um drone praticamente 100% automatizado, mas seu desempenho ficará aquém da capacidade que possui se não for devidamente configurado, e o resultado da aplicação não será satisfatório. Esse é o ponto central. O equipamento sozinho não faz uma boa aplicação. A capacitação das pessoas que vão operá-lo é fundamental. Muitas vezes, o agricultor investe em equipamentos de última geração e acaba negligenciando o fator humano. Não é raro que alguém invista uma grande quantia na aquisição de um equipamento moderno, mas não queira investir no treinamento do operador. Um exemplo bastante comum é a preparação da calda. Trata-se de uma etapa extremamente importante, mas que, muitas vezes, acaba sendo deixada em segundo plano. Em algumas propriedades rurais e usinas, a preparação da calda é delegada a pessoas sem o treinamento adequado. O produtor investe em fungicidas, inseticidas e herbicidas de alta tecnologia, mas entrega esses produtos a alguém que não possui o conhecimento necessário para realizar a mistura e a aplicação corretamente. A capacitação das pessoas é o primeiro passo para uma aplicação eficiente. É preciso saber qual água será utilizada, qual a ordem correta da mistura dos produtos, qual a quantidade adequada de água e diversos outros aspectos fundamentais. Portanto, não adianta possuir excelentes produtos ou equipamentos de última geração se o profissional que está na ponta da operação não estiver devidamente preparado. Hoje, um dos maiores desafios continua sendo a capacitação de pessoas. Escutamos frequentemente questionamentos sobre o futuro das profissões diante do avanço da inteligência artificial. Será que continuaremos precisando de agrônomos e técnicos agrícolas? A resposta é sim. Continuaremos precisando de profissionais qualificados. A tecnologia continuará evoluindo, e precisaremos de pessoas capazes de compreender essas transformações e adaptá-las à nossa realidade. Por isso, entidades públicas e privadas, bem como operadores e produtores rurais, precisam entender que investir na formação de pessoas é tão importante quanto investir em tecnologia.

VISITA
Cunha no Instituto de Pesquisa para Agricultura, Pescas e Alimentação de Flandres (ILVO), com sede na Bélgica, que é um dos únicos laboratórios credenciados do mundo especializados na caracterização e avaliação de pulverizadores e bicos Spray Tech Lab. O laboratório possui foco em sustentabilidade e eficiência no uso de defensivos agrícolas

O Brasil tem formado profissionais suficientemente preparados para atuar na tecnologia de aplicação aérea?

O Brasil tem formado muitos profissionais. No entanto, quando perguntamos se eles estão saindo preparados para atuar na tecnologia de aplicação aérea, a resposta ainda é não. Esse é um ponto que precisamos melhorar significativamente. Infelizmente, uma parcela considerável dos profissionais — sejam agrônomos ou técnicos — que ingressam no mercado de trabalho não possui o nível de conhecimento adequado sobre tecnologia de aplicação e, principalmente, sobre aplicação aérea. Muitas vezes, esses profissionais chegam ao mercado sem uma visão técnica das operações aeroagrícolas e carregando percepções distorcidas sobre a atividade. Isso representa um problema importante, porque o profissional só compreenderá realmente a aplicação aérea quando passar a conhecê-la tecnicamente. E esse conhecimento deveria ser oferecido ainda durante a formação universitária. Nos últimos anos, avançamos nesse aspecto. O número de profissionais atuando na área de tecnologia de aplicação cresceu consideravelmente nas últimas duas décadas. Hoje já contamos com programas de pós-graduação dedicados ao tema, o que tem contribuído para a formação de mão de obra especializada. Entretanto, o número de estudantes que se formam em Agronomia é muito elevado e ainda não conseguimos alcançar todos eles. Como consequência, muitos profissionais chegam ao mercado sem a formação adequada para lidar com a tecnologia de aplicação. A aplicação aérea não é igual à aplicação terrestre, é uma atividade que exige conhecimento específico. Para executá-la corretamente, é necessário compreender conceitos próprios dessa tecnologia. Por isso, precisamos buscar estratégias para fortalecer a formação de recursos humanos. Somente assim conseguiremos aproveitar plenamente todo o potencial dessa ferramenta.

O Ibravag tem a educação como um de seus pilares e vem trabalhando na consolidação do centro de formação de profissionais, já conta com o curso de atualização de pilotos e no segundo semestre vai abrir o de formação. Como o senhor avalia essas iniciativas?

Em primeiro lugar, considero essas iniciativas fundamentais para resolvermos dois desafios que caminham juntos: a formação profissional e a atualização permanente dos profissionais já atuantes. Isso envolve pilotos, agrônomos, técnicos agrícolas e todos os demais profissionais ligados às operações de campo. As universidades e muitas instituições de ensino nem sempre possuem estrutura ou recursos suficientes para atender plenamente essa demanda. Por isso, iniciativas como as do Ibravag são extremamente importantes. Elas ajudam a difundir conhecimento técnico e a mostrar como as operações devem ser conduzidas. É fundamental criar mecanismos que facilitem o acesso ao conhecimento. Lembro que, há alguns anos, o Sindag distribuiu materiais técnicos para universidades e outras instituições, apresentando a aplicação aérea, seu funcionamento e os critérios necessários para a obtenção de bons resultados. Esse foi um passo importante e precisamos continuar avançando nessa direção. No caso dos pilotos agrícolas, é indispensável investir continuamente em formação e atualização. A necessidade de reciclagem profissional é cada vez maior porque a ciência evolui rapidamente. Precisamos oferecer oportunidades para que esses profissionais acompanhem as transformações tecnológicas que ocorrem no setor. Vou citar novamente o programa CAS, que atualmente também busca oferecer cursos de atualização para profissionais que já atuam há muitos anos no mercado e desejam conhecer novas tecnologias e práticas. Vejo a iniciativa do Ibravag exatamente dentro dessa lógica. Volto a dizer: precisamos fortalecer todos os elos da cadeia produtiva, desde o piloto até o preparador de calda. Se qualquer elo dessa corrente estiver fragilizado, a qualidade da aplicação será comprometida. Quando pensamos especificamente nos pilotos, estamos falando de um universo relativamente menor e mais acessível. Entretanto, quando ampliamos o olhar para agrônomos, técnicos agrícolas e produtores rurais, o desafio cresce enormemente. Estamos em um país de dimensões continentais e precisamos fazer o conhecimento chegar ao Nordeste, Norte, Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Essa é uma tarefa complexa, mas fundamental para construirmos um cenário cada vez mais favorável à sustentabilidade do setor agropecuário.

E o que o senhor, como professor, costuma enfatizar às pessoas que desejam atuar nessa área?

Quando alguém possui vocação para atuar nessa área, naturalmente acabará se identificando com a aviação agrícola ou com a tecnologia de aplicação. Minha principal orientação é que busque sempre mais conhecimento e esteja disposto a estudar continuamente. Nas universidades, procuramos incentivar os estudantes a conhecerem melhor o tema. Muitas vezes, agricultores e agrônomos estão excessivamente concentrados no produto que será aplicado e acabam negligenciando a forma como a aplicação será realizada. Costumo fazer uma comparação simples: é como comprar o melhor protetor solar disponível no mercado e aplicá-lo de maneira inadequada. Nesse caso, ele não cumprirá sua função. O mesmo ocorre com os produtos fitossanitários. Não basta que sejam bons produtos. Eles precisam ser aplicados corretamente. Precisamos compreender como fazer o produto chegar ao alvo da forma mais eficiente possível. Como professor de agronomia, procuro incentivar os estudantes a se preocuparem não apenas com o produto, mas também com a qualidade da aplicação. Isso tem se tornado especialmente importante com o crescimento dos drones agrícolas. Por serem tecnologias relativamente novas, os drones atraíram muitas pessoas que não tinham histórico de atuação no campo, mas enxergaram nessa atividade uma oportunidade de negócio. Muitos acreditam que basta adquirir um drone e começar a operar. Entretanto, a tecnologia de aplicação é complexa. Quem deseja trabalhar na área precisa estudar aspectos como condições meteorológicas, tamanho de gota, volume de calda, altura de voo, velocidade operacional e diversos outros fatores. Programar um drone para voar é relativamente fácil. Fazer com que a aplicação gere resultados agronômicos efetivos é um desafio muito maior. Por isso, precisamos incentivar continuamente a busca por conhecimento técnico.

Qual conselho o senhor daria aos operadores e empresários agrícolas que desejam elevar o padrão técnico de suas operações?

Meu principal conselho é buscar informações técnicas e investir na capacitação das pessoas envolvidas nas operações. Hoje já existe uma compreensão consolidada sobre a importância de possuir bons equipamentos. O operador ou o produtor rural quer adquirir o avião mais moderno ou o drone mais avançado disponível no mercado. Entretanto, muitas vezes não investe na qualificação da equipe nem em assistência técnica adequada. Além disso, considero fundamental incentivar a pesquisa, pois ela gera informações capazes de orientar as melhores práticas operacionais. O conhecimento produzido pela pesquisa é justamente o que será posteriormente transferido para os programas de capacitação e treinamento. Portanto, investir simultaneamente em tecnologia, pesquisa e formação de pessoas é o caminho mais seguro para elevar o padrão técnico das operações.

Como o senhor enxerga o futuro da aplicação aérea diante das demandas por sustentabilidade?

Precisamos conscientizar produtores rurais e operadores de que as aplicações devem ser, ao mesmo tempo, eficazes e eficientes. As novas tecnologias precisam nos ajudar não apenas a controlar os problemas existentes no campo, mas também a fazê-lo com responsabilidade ambiental. Para alcançar esse objetivo, devemos reduzir impactos ambientais e promover a sustentabilidade das operações. Atualmente, o grande avanço tecnológico está relacionado à automação, aos sensores e à análise de dados. Num futuro bastante próximo, teremos sistemas ainda mais sofisticados de identificação de alvos, muitos dos quais já estão em desenvolvimento. Teremos sensores capazes de identificar áreas específicas que necessitam de intervenção e transmitir essas informações para aeronaves tripuladas ou não tripuladas. Isso permitirá realizar aplicações cada vez mais localizadas, precisas e eficientes.

FUNDAMENTAL
Professor destaca a importância da capacitação de todos os elos da aplicação para garantir operações seguras, eficazes e eficientes, isto é, otimizando os recursos, a partir da redução do desperdício e do impacto ambiental

Sustentabilidade e produtividade conseguem caminhar juntas na aplicação fitossanitária?

Sim. Produtividade e sustentabilidade devem caminhar juntas. Para isso, precisamos desenvolver ferramentas adequadas. Já mencionamos algumas delas, como a qualificação de pessoal e o uso de equipamentos apropriados. Uma das iniciativas que surgiram com esse objetivo foi o Programa de Certificação Aeroagrícola Sustentável (CAS), criado em 2013, para incentivar a capacitação e a qualificação dos profissionais das empresas de aviação agrícola e dos operadores privados. O programa foi concebido dentro do conceito de boas práticas na aplicação aérea de produtos fitossanitários. Seu objetivo vai muito além do simples controle de pragas, doenças ou plantas daninhas. A proposta sempre foi estimular a adoção de boas práticas em toda a operação aeroagrícola. Para isso, o programa trabalha conceitos de responsabilidade social, ambiental e econômica, ou seja, os pilares da sustentabilidade. O esforço busca melhorar continuamente a qualidade das pulverizações e reduzir possíveis riscos ambientais. Trata-se de um programa de certificação específico para a aplicação aérea, criado pela Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas e Florestais (Fepaf), vinculada à Unesp de Botucatu, em parceria com universidades como a Unesp, a Ufla e a Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Eu e outros professores participamos da condução desse programa exatamente com o propósito de incentivar a qualidade técnica e a capacitação permanente do setor. Como a tecnologia evolui constantemente, o programa também precisa evoluir. Por isso, ele passa por atualizações periódicas, sempre buscando fortalecer a qualificação do setor aeroagrícola.

Para encerrar, qual é a maior oportunidade para o setor aeroagrícola nos próximos anos?

Acredito que a maior oportunidade para o setor aeroagrícola está diretamente ligada ao extraordinário avanço tecnológico que estamos vivenciando. Estamos passando por uma verdadeira revolução baseada em ciência de dados, inteligência artificial e automação. Precisamos aproveitar esse momento para planejar melhor as operações, realizar aplicações mais eficientes e demonstrar à sociedade a qualidade técnica da atividade aeroagrícola. Hoje, dispomos de ferramentas que permitem fazer isso. Temos aplicativos para planejamento, monitoramento e gerenciamento das operações. Conseguimos documentar áreas tratadas, eficiência operacional e diversos outros indicadores. Se utilizarmos adequadamente essas ferramentas, teremos condições de demonstrar à sociedade os benefícios da aplicação aérea. Muitos preconceitos ainda existentes decorrem da falta de informação. Frequentemente, pessoas que não conhecem a atividade fazem críticas sem fundamentos técnicos. Quando passamos a trabalhar com dados, ciência e evidências, conseguimos demonstrar a viabilidade técnica, econômica e ambiental da atividade. Acredito que essa revolução baseada em ciência de dados e inteligência artificial representa uma oportunidade extraordinária para o setor. Se soubermos aproveitá-la, teremos condições não apenas de melhorar as operações, mas também de ampliar o entendimento da sociedade sobre a importância da aviação agrícola e sobre todo o potencial que ela possui.

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