AUTORES
GLEICA GRAVIEL SILVA
Engenheira agrônoma, especialista em Tecnologia de Aplicação Aérea na Agroefetiva, Botucatu/SP – Brasil, (14) 998599723, gleica@agroefetiva.com.br
FERNANDO KASSIS CARVALHO
Engenheiro agrônomo, pesquisador na AgroEfetiva, Botucatu/SP – Brasil
MÁRCIO LUIZ MOURA SANTOS
Engenheiro agrônomo, especialista na AgroEfetiva, Sinop/MT – Brasil
MARIANE TAVARES VIEIRA
Engenheira agrônoma, especialista na AgroEfetiva, Sinop/MT – Brasil
JOÃO PAULO DE AMORIM OLIVEIRA
Engenheiro agrônomo, especialista na AgroEfetiva, Sinop/MT – Brasil
GABRIEL PASTOR DE BARROS LIMA
Engenheiro agrônomo, especialista na AgroEfetiva, Sinop/MT – Brasil
ULISSES ROCHA ANTUNIASSI
Engenheiro agrônomo, professor titular, Departamento de Engenharia Agrícola, Faculdade de Ciências Agronômicas, Unesp, Botucatu/SP
O Brasil possuí a segunda maior frota aeroagrícola do mundo, sendo que a concentração geográfica significativa das aeronaves está entre os estados do Mato Grosso, em primeiro lugar, e, em segundo lugar, do Rio Grande do Sul (Sindag, 2025). No Rio Grande do Sul (RS), há uma predominância do uso de aeronaves agrícolas movidas a pistão, visto que 97% das propriedades rurais do Estado possuem menos que 500 hectares (IBGE. 2017). Uma das maiores preocupações no Estado com aplicação aérea de agrotóxicos consiste no risco de deriva de herbicidas (Brasil, 2016). Assim é comum o uso de pontas hidráulicas como as do tipo jato cônico. Essa ponta hidráulica é composta por um disco (D) e um difusor (DC), que juntos auxiliam no controle da vazão e na abertura do jato cônico. Além da engenharia da ponta, da velocidade de voo e da composição da calda, o espectro de gotas deste modelo de ponta também sofre influência do ângulo de deflexão dos bicos em relação ao fluxo de ar. E apesar do uso amplamente difundido deste modelo de ponta no RS, há uma insuficiência de informações que auxiliem na correta escolha entre os diferentes modelos e sobre a interferência do ângulo de deflexão em seu espectro. Assim, foi proposta uma pesquisa para avaliar a interferência do tipo de ponta e o ângulo de deflexão dos bicos no espectro de gotas para dois modelos de pontas de pulverização de jato cônico. Este trabalho teve como objetivo avaliar o espectro de gotas das pontas hidráulicas de jato cônico vazio D8DC45 e D8DC46, da fabricante TeeJet®, sob ângulos de deflexão de 0° e 45°.
A pesquisa foi conduzida no Centro de Pesquisas e Desenvolvimento (CPD) da AgroEfetiva®, em Botucatu, São Paulo, utilizando um Túnel de Vento de Alta Velocidade (TVAV), de circuito aberto, projetado para simular as condições reais de voo em aplicações aéreas. O túnel (FIGURA 1) possui capacidade de atingir velocidades superiores a 300 km/h.
Foram avaliadas duas pontas hidráulicas do modelo de ponta e difusor de jato cônico vazio D8DC45 E D8DC46, ambas da fabricante TeeJet®. Cada ponta foi testada em duas posições angulares: 0° (posição perpendicular ao fluxo de ar) e 45° (posição inclinada), totalizando quatro tratamentos experimentais. A calda utilizada foi composta apenas por água limpa, pulverizada sob pressão constante de 2,06 bar (30 psi). Nessa pressão, as pontas D8DC45 e D8DC46 geram vazão de 2,7 L min-1 e 6 L min-1, respectivamente. A velocidade do fluxo de ar foi mantida em 180 km h-1, simulando as condições operacionais da aeronave agrícola Ipanema que é movida a pistão e amplamente utilizada em pulverizações aéreas no Brasil. A avaliação do espectro de gotas foi realizada por meio de análise por difração a laser, utilizando o equipamento HELOS (Sympatec GmbH, Alemanha), com lente do tipo R6, adequada para detectar gotas em uma faixa de diâmetros entre 0,5 µm e 1750 µm. O sistema, composto por um emissor e um receptor óptico, foi posicionado externamente ao túnel, com o feixe de laser atravessando perpendicularmente a zona de pulverização. A distância entre a ponta e o feixe foi padronizada em 45 cm, conforme estabelecido pela norma ANSI/ASABE S641 (2022), assegurando a representatividade da amostragem. Cada configuração de ponta e ângulo foi submetida a três repetições, com duração de 10 segundos por pulverização. Foram analisados os parâmetros DMV (diâmetro volumétrico mediano) e DV0.9, além da fração volumétrica de gotas menores que 100 µm (V100) e a amplitude relativa (AR), calculada pela razão entre a diferença de DV0.9 e DV0.1 sobre DMV. Esses parâmetros são reconhecidos como indicadores-chave da uniformidade do espectro de gotas e do potencial de deriva. Durante os ensaios, as condições ambientais foram cuidadosamente monitoradas, com temperatura média de 21 °C (±2 °C) e umidade relativa variando entre 62% e 71%. A manutenção desses fatores constantes garantiu que os efeitos observados nos parâmetros de pulverização fossem decorrentes exclusivamente do modelo e da posição das pontas avaliadas. A Tabela 1 apresenta os valores médios dos principais parâmetros do espectro de gotas para os diferentes modelos de pontas hidráulicas e ângulos de aplicação avaliados.

Para ambas as pontas avaliadas, a alteração do ângulo de deflexão de 0° para 45° gerou redução no valor de DMV, aumento no percentual de V100 e elevação da AR. De acordo com Grella et al. (2020), a deflexão da ponta em relação ao fluxo de ar gera um aumento no cisalhamento da lâmina líquida, promovendo maior instabilidade e, consequentemente, a formação de gotas menores e mais heterogêneas. A ponta D8DC46, com deflexão a 0° em relação ao fluxo de ar, apresentou maior DMV (395,37 µm) em comparação à ponta D8DC45 (272,29 µm), o que indica a formação de gotas mais grossas, com menor suscetibilidade à deriva, o que também é evidenciado pelo menor valor de V100 de 1,92% e 8,03% respectivamente. Gotas com diâmetros inferiores a 100 μm têm um elevado potencial de deriva e quanto maior o valor do DMV menor o risco de ocorrer deriva (MATTHEWS,2000). Quando as pontas foram posicionadas a 45°, os resultados gerados foram inversos ao descrito anteriormente no ângulo de 0°. Sendo que a ponta D8DC46 apresentou menor valor de DMV, maior percentual de V100 e maior A.R. em comparação à ponta D8DC45. Demonstrando que o modelo de ponta D8DC46 teve seu espectro de gotas altamente influenciado pelo ângulo de deflexão, o que pode ser explicado por Hewitt (2000), que afirma que pontas com maior vazão ou orifícios maiores, como é o caso da D8DC46, tendem a produzir gotas maiores quando operadas perpendicularmente ao fluxo de ar, em razão da menor quebra do jato e da maior espessura da lâmina de pulverização. Com base nos dados é essencial uma seleção criteriosa do conjunto ponta/ângulo durante o planejamento de uma aplicação aérea, pois essas escolhas influenciam diretamente na eficiência da deposição, na cobertura da calda no alvo e no risco ambiental associado à deriva. O uso de tecnologias como o túnel de vento de alta velocidade associado à difração a laser mostra-se essencial para a caracterização detalhada do espectro de gotas em condições padronizadas e reprodutíveis.

Para ambas as pontas avaliadas (D8DC45 e D8DC46), a variação de 0° para 45° no ângulo de deflexão gerou menor tamanho de gota, aumento no risco de deriva e menor uniformidade da aplicação. A ponta D8DC46 tem seu espectro de gotas altamente influenciado pela mudança na angulação da ponta em relação ao fluxo de ar, e seu uso a 45° gerou gotas mais finas.
Referências bibliográficas
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