Aviação agrícola se prepara para a temporada de incêndios 2020

Além do treinamento feito nas empresas que normalmente atuam contra chamas, setor ganhou este ano o curso da Fundação Astropontes

Publicado em: 01/07/20, 
às 18:13
, por IBRAVAG

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Com a proximidade do mês de julho e o início da temporada de incêndios florestais no Sudeste e Centro-Oeste do País, pilotos agrícolas de todo o Brasil começam a se preparar para as operações contra chamas. Normalmente, os treinamentos são promovidos por empresas aeroagrícolas que atuam na proteção de parques, áreas de preservação e socorrendo produtores rurais contra o fogo em lavouras. Dois exemplos desse caso ocorreram em Goiás, onde operadoras do setor no sudoeste do Estado aproveitaram os meses de maio e junho para afinar suas equipes. Paralelamente, em São Paulo, este ano a Fundação Astronauta Marcos Pontes (Astropontes) também entrou no circuito: preparou seu primeiro curso de combate aéreo a incêndios em campos e florestas.

A iniciativa da Fundação Astropontes ocorre em conjunto com a Faculdade de Ciências Aeronáuticas da Instituição Toledo de Ensino (ITE), de Bauru, e tem parceria com a empresa Pachu Aviação Agrícola, no município de Olímpia (a 435 quilômetros da capital paulista), além do apoio do Sindag e do Ibravag. Com aulas programadas para a semana de 13 a 17 de julho, a ideia veio do aumento da incidência de focos de incêndios florestais verificado em 2019 no Brasil. Um total de 161.236, entre janeiro e outubro, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) – 45% a mais do que em 2018 e 84% deles registrados no mês de agosto.

EXERCÍCIOS
Além das aulas teóricas, repassando procedimentos de voo, comunicação e comportamento do fogo, os pilotos também precisam realizar simulações com lançamentos de água.
Fotos: Castor Becker Júnior/C5 NewsPress

EQUIPE DOCENTE
Segundo Edson Mitsuya, diretor de Operações da entidade beneficente criada em 2010 pelo então astronauta e hoje ministro da Ciência e Tecnologia Marcos Pontes, foi montado um time de instrutores de peso para o curso. A equipe conta com a especialista em aviação agrícola Mônica Maria Sarmento e Souza – do Ministério da Agricultura e com formação em Aviação de Combate a Incêndios em Campos e Florestas pelo British Columbia Forest Service/Canadá; pela Junta de Andaluzia/Espanha e Governo do Chile. Além dela, o piloto Sepé Tiaraju Barradas e os empresários Astor Schlindwein (Americasul Aviação Agrícola) e Marcelo (China) Amaral, da Pachu. Todos com mais de uma década de experiência em operações contra chamas.

“O curso é exclusivamente para pilotos agrícolas que já operam turboélices – aviões maiores e mais potentes que as aeronaves com motor a pistão”, explica Mitsuya. Ele lembra que as aulas estavam inicialmente previstas para junho, mas acabaram adiadas devido à pandemia do novo coronavírus. Além de aumentar o número de pilotos agrícolas capacitados para esse tipo de missão, a ideia é também divulgar as vantagens de contar com a aviação em operações contra chamas. “Protegendo reservas, matas nativas e a sustentabilidade ambiental”, completa.

No caso da empresa aeroagrícola de Olímpia, além de sediar o curso, Amaral atuará na parte prática do curso, ministrando as aulas com um turboélice agrícola Air Tractor AT- 504, de dois lugares e duplo comando. O avião tem capacidade para 1,8 mil litros de água e, além do trabalho em lavouras e combate a incêndios, também é utilizado em instruções para pilotos que estão começando a voar em aeronaves turboélices. “A expectativa com o curso é muito boa. Os pilotos terão que fazer pelo menos quatro lançamentos de combate a incêndio e terão que acertar o alvo”, explica o empresário.

Especialistas ajudam pilotos a aperfeiçoar procedimentos

AMARAL: Diretor do Sindag dá instrução em um turboélice agrícola de duplo comando lado a lado

No caso das duas empresas goianas citadas no início da reportagem, o curso mais recente ocorreu na Tradição Aeroagrícola, do município de Caiapônia. Cinco pilotos passaram por um treinamento de dois dias, com parte teórica no dia 2 e prática no dia 3 de junho. No caso, tendo como instrutores a especialista Mônica Sarmento e o piloto Sepé Barradas. “A turma já tinha experiência contra fogo, mas achamos melhor aperfeiçoar o grupo, trazendo gente de peso para falar sobre coordenação com as aeronaves, aproximação e ataque ao fogo, por exemplo”, explica o empresário Lourival Lopes Freitas.

O curso contou com a participação também dos mecânicos, técnicos e outros funcionários da Tradição. Cada piloto teve que realizar cinco lançamentos, somando uma hora de voo. Aproveitando o início da entressafra – quando há uma pausa no trato de lavouras, a empresa terá três aeronaves Ipanema (com motor a pistão e capacidade para 950 litros de água cada) de prontidão, com o suporte de uma caminhonete e dois caminhões para transporte de combustível e equipamento. “Serão cinco pilotos, cinco executores (técnicos agrícolas com especialização em operações aéreas) e dois coordenadores de aviação agrícola (agrônomos) no revezamento. Do começo de julho até o início das chuvas, em setembro”, ressalta Freitas.

Conforme o empresário, os casos de incêndios ocorrem principalmente nas lavouras de cana-de-açúcar e milho: na palhada e nas plantas em pé. “Aqui, nós não voamos em áreas de eucalipto ou outras florestas, mas às vezes também temos que proteger nascentes e algumas áreas verdes”, completa. “Todos os anos o pessoal (produtores) passa muito apuro.”

Prontidão no campo e ação social na cidade

O outro exemplo mencionado foi a Aerotex Aviação Agrícola, no município de Rio Verde (GO). Seus 15 pilotos encarregados da prontidão contra chamas em lavouras ou áreas de preservação tiveram seis horas de aulas teóricas no dia 13 de maio. Os integrantes da chamada Brigada Aérea da Aerotex ainda devem passar em julho pelos exercícios práticos, conforme forem iniciando os plantões.

Na primeira etapa, os profissionais (também experientes) revisaram os conhecimentos sobre navegação, meteorologia e fraseologia na comunicação via rádio. Além de segurança operacional, boas práticas e eficiência no combate às chamas. A Brigada Aérea tem este ano cinco aviões de prontidão. Os produtores que resolvem investir no serviço dividem os custos dos pilotos e profissionais de apoio em solo. E, quem acionar a Brigada, paga mais as horas voadas.

Como nos dois anos anteriores, desde sua criação, metade do arrecadado pela Brigada Aérea vai para instituições beneficentes de Rio Verde. Segundo o diretor da Aerotex, Ruy Alberto Textor, no ano passado foram distribuídos R$ 158.469,00, entre entidades que cuidam de crianças, idosos, dependentes químicos e outras. Isso depois de 140 acionamentos, 220 horas voadas e 1.050 lançamentos de água contra chamas.

CAMPOS: Aeroagrícola alegretense teve três operações em pouco mais de um mês na mesma região

No Sul, aeroagrícola de Alegrete lançou 97 mil litros de água em três incêndios

No Rio Grande do Sul, com o tempo seco no início do ano, o setor aeroagrícola teve que entrar em ação para proteger campos nativos no município de Alegrete, na região da Campanha. Em apenas três chamados entre março e abril, a empresa Itagro Aviação Agrícola lançou mais de 97 mil litros de água contra as chamas. A ação mais intensa durou 11 horas e foi no dia 20 de abril, uma segunda-feira. Contra um incêndio que atingiu mais de 600 hectares na região de Guaçu-Boi – 50 quilômetros no interior do Município.

“As chamas começaram no domingo, mas fomos acionados só no final do dia. Por isso, tivemos que esperar para decolar no amanhecer seguinte”, conta o empresário da Itagro e diretor do Sindag Marcos Antônio Camargo. Quando a primeira aeronave decolou, ao raiar do dia, a equipe de apoio já havia chegado de madrugada em uma pista no interior, a mais próxima do incêndio com disponibilidade de água – a 14 quilômetro das chamas.

“O avião (um turboélice Air Tractor 402B, com capacidade para 1,5 mil litros de água) já partiu cheio da base da Itagro e foi direto para o fogo”, conta Camargo. No total, a aeronave fez 62 lançamentos contra o fogo. À tarde, a empresa teve que deslocar um segundo avião para outra frente na área, a fim de eliminar as chamas que chegavam perigosamente perto de residências em uma das fazendas atingidas. Nesse caso, um Embraer Ipanema, com capacidade para 800 litros de água, que fez outros 17 lançamentos contra chamas. Saldo total da ocorrência em Guaçu-Boi: mais de 81 mil litros lançados contra o fogo.

PROTEÇÃO
A Itagro ainda lançou quase 16 mil litros de água em outros dois incêndios nos campos alegretenses. Um deles no dia 10 de março e o último no dia 23 de abril. Na operação de março, a missão foi proteger uma área de mata nativa no campo incendiado. “O pessoal em terra estava dando conta do combate, mas havia um ponto de difícil acesso. Por isso, precisaram do avião”, recorda Camargo.

Já a última operação foi no dia 23 de abril, em uma área de 30 hectares a cerca de seis quilômetros da pista da Itagro. Novamente com dois aviões em serviço – e um terceiro de prontidão, que acabou não sendo necessário. Foram usados apenas 7 mil litros de água para dar conta do recado. “O vento ajudou, virando no final da operação e soprando na direção já queimada”, completa. “Nesse tipo de operação, sempre contamos também com pessoal em terra, eliminando braseiros e focos menores logo que o avião passa”, destaca o empresário. Aliás, a própria proteção do pessoal em solo também é tarefa do piloto nesses casos.

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