O arroz, considerado a cultura mais dependente da aviação agrícola, começa a safra 2025/2026 com o pior cenário econômico, para alguns especialistas, desde o Plano Real. Para o diretor da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) Fernando Rechsteiner, o problema central não está dentro da porteira — e sim fora dela. “O negócio arroz tornou-se, hoje, deficitário”, pontua o produtor rural, que também é conselheiro do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga).
A crise financeira já provoca descapitalização, redução de investimentos e corte de tecnologia. Para esta safra, aliada à redução da área plantada em até 10% em relação ao ciclo anterior, a expectativa é de redução no uso de fertilizantes, da qualidade das sementes e no manejo — o que deve se traduzir em queda de produtividade.
A aviação agrícola, tradicional ferramenta de precisão no cultivo, também registra retração. “É visível, os aviões estão voando menos. Em meados de novembro, a gente já via grande movimentação de aeronaves agrícolas na região”, observa Rechsteiner, que tem suas lavouras em Pelotas/RS. E completa: “o produtor está cortando onde pode, mesmo que isso signifique aplicações menos eficientes do que as proporcionadas pelas aeroagrícolas”, reforça.
Segundo Rechsteiner, a situação é resultado dos estoques de passagem elevados — estimados entre 1,5 e 2 milhões de toneladas —, provocados pela importação do cereal de países do Mercosul, especialmente Paraguai, sem pagamento de impostos, que os arrozeiros do Rio Grande do Sul precisam recolher. E são esses estoques que impedem a recuperação dos valores pagos ao produtor.
A saída, para o dirigente, passa por medidas urgentes do governo federal. O setor pede mecanismos para escoar o excedente que entra do Mercosul, restabelecendo o equilíbrio do mercado. “Se não há intenção de tarifar a entrada, que ao menos se ajude a retirar esse produto do País”, diz.
Lavoureiro mira na produção de etanol e DDG do arroz
Como o diretor da Farsul Fernando Rechsteiner diz: ainda tem muita coisa para acontecer até o final da safra. Para o futuro, o setor mira novos mercados e novos usos. A produção de etanol e DDG — um coproduto rico em proteína usado para alimentação de animais — a partir do arroz é uma aposta estratégica, semelhante ao movimento feito pelo milho. Estudos iniciais indicam viabilidade técnica, mas falta ajustar o modelo econômico para remunerar adequadamente o produtor.
Rechsteiner reforça que o Brasil é autossuficiente em arroz, e a produtividade do cereal no Rio Grande do Sul nunca foi tão alta. As variedades desenvolvidas no Estado elevaram a média acima de 9 mil quilos por hectare na última safra, impulsionadas por manejo eficiente, rotação de culturas e plantio dentro do período ideal.
No entanto, apesar da excelência agronômica, o produtor colhe prejuízo: com o valor do saco de arroz em torno de R$ 60,00 e custo médio de produção acima de R$ 80,00, a atividade opera com perdas na casa dos 30%. E Rechsteiner alerta: “ninguém permanece numa atividade inviável. Se o cenário não mudar, veremos uma retração ainda maior da área de arroz no Estado”. O aviso está ligado à necessidade de baixar os estoques de passagem.
Diversificação de culturas ajuda produtor a driblar crise no arroz

Daniel Hoerbe conta que agora a soja é o carro-chefe da Agropecuária Harmonia.
Foto: Acervo pessoal
Para enfrentar os ciclos de preços baixos e o aumento dos custos de produção da lavoura, o engenheiro agrônomo e produtor rural Daniel Hoerbe investiu na diversificação da lavoura. Gestor da Agropecuária Harmonia, no distrito da Barragem do Capané, em Cachoeira do Sul/RS, desde a safra 2010/2011, precisou romper com a longa tradição orizícola da família.
“Planto arroz, soja, milho e trabalho com a pecuária”, diz o produtor rural. A propriedade, que seguia o sistema tradicional de dois cortes — um ano com arroz e outro com a terra em descanso —, começou a mudar na safra 2011/2012, quando a família enfrentou forte prejuízo após uma superoferta de arroz no Rio Grande do Sul.
A partir daquele momento, metade da área antes ociosa passou a receber soja, iniciando um sistema de rodízio entre arroz e a oleaginosa. A estratégia reduziu custos, otimizou máquinas e mão de obra e aumentou a produtividade das áreas que recebiam soja antes do cereal. Mais tarde, o milho foi incorporado ao sistema.
“Estamos buscando o melhor arranjo possível”, explica Hoerbe. Hoje, a maior parte da lavoura da Fazenda Harmonia é de soja, que se tornou o carro-chefe da propriedade. A área de arroz, que já foi de 400 hectares, caiu para 255 hectares. “A situação do arroz é muito ruim. O preço atual não paga o custo de produção”, explica. Mesmo assim, não dispensa a aviação agrícola no manejo da cultura. “O avião é insubstituível no arroz”, afirma o gestor.
Na soja, Hoerbe combina trator e aviação, pois em janeiro e fevereiro as janelas de aplicação são curtas. “O avião garante agilidade e evita amassamento”, pontua o empresário. No milho, a aplicação também é aérea devido à altura da planta.





