ALDO REBELO: Político, jornalista, escritor e palestrante
“O Brasil não pode renunciar ao meio ambiente em nome do desenvolvimento e nem pode renunciar ao desenvolvimento em nome do meio ambiente.” A frase é do ex-ministro, jornalista, palestrante e escritor José Aldo Rebelo Guimarães e reflete a importância do agronegócio brasileiro levar à Conferência Mundial do Clima das Nações Unidas – COP-30 uma agenda que contemple proteção ambiental e desenvolvimento.
Embora não esteja envolvido diretamente com a COP-30, o tema tem a atenção de Aldo Rebelo. Afinal a conferência ocorrerá neste ano em Belém/PA, porta de entrada para a Amazônia brasileira, floresta que está no centro das discussões do planeta quando se fala em mudanças climáticas. Ele defende o desenvolvimento econômico e social do País, inclusive da Amazônia, para que seu povo possa usufruir da riqueza da floresta.
Com um pensamento nacionalista, Aldo Rebelo tem como princípio inegociável a soberania nacional e, portanto, cabe ao Brasil manter “a firmeza de convicções na disputa de seus interesses nacionais legítimos e de seus agricultores e criadores”, diz em seu livro O Quinto Movimento (Jornal JÁ Editora/2ª edição-2023). Entende que a agropecuária brasileira evoluiu muito e segue evoluindo, valendo-se de tecnologia de ponta, como a aviação agrícola, para mitigar riscos ao meio ambiente e garantir a produtividade.
Embora circule por diferentes temas, tem pautado sua vida pública alinhada à defesa nacional e ao desenvolvimento do Brasil. Com um currículo vasto, sua trajetória inclui cinco mandatos como deputado federal – chegando a presidente da Câmara de 2005 a 2007 – e ministro nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.
Atualmente, Aldo Rebelo é presidente da Fundação Ulysses Guimarães (FUG) – Representação São Paulo (instituição vinculada ao MDB) e está percorrendo os Estados brasileiros até setembro, conduzindo os encontros regionais com o tema “O Brasil precisa pensar o Brasil”. Também está finalizando uma biografia de Dom Pedro I, destacando o papel do imperador na consolidação do País.
De onde vem sua identificação com a vida no campo e com o meio ambiente?
Minha família tem raízes rurais, minha mãe, meu avô, meu bisavô, meu trisavô, eram todos do campo. Nasci de parteira, fui alfabetizado em escola rural e frequentei um colégio agrícola, e é natural que tenha com esse mundo uma profunda identidade e relações afetivas.
O senhor atuou no governo Lula e Dilma Rousseff em pastas muito diferente, foi ministro da Defesa, da Ciência e Tecnologia, do Esporte e esteve na Coordenação Política e Assuntos Institucionais. Já na Câmara dos Deputados, o senhor apresentou projetos voltados às questões ambientais e à agropecuária. Como foi circular por assuntos tão variados e de tamanha importância?
Minha vida parlamentar não estava vinculada a compromissos com uma corporação ou uma agenda única, o que fazia com que meus interesses estivessem vinculados à defesa nacional e ao desenvolvimento do Brasil e a todas as matérias que tivessem relação com essa agenda. Defendi a Língua Portuguesa, a cultura da mandioca, fui relator da lei de biossegurança, conhecida como lei dos transgênicos, e do Código Florestal.
No que diz respeito à Amazônia, o senhor defende o desenvolvimento da região, chamando a atenção para as suas riquezas ao mesmo tempo que amarga um dos piores indicadores sociais do Brasil*. Como seria esse desenvolvimento aliado à proteção ao meio ambiente?
O desenvolvimento da Amazônia deve obedecer a quatro princípios: o primeiro, o da soberania nacional inegociável sobre a região; o segundo, o do direito ao desenvolvimento como algo intransferível e usufruto dos recursos naturais da Amazônia em benefício da sua população e do Brasil; terceiro, a proteção das populações indígenas e dos seus direitos à sua cultura e tradições, mas também ao bem-estar material e espiritual, com educação, saúde, saneamento básico, água tratada, luz elétrica e infraestrutura; quarto, proteção do meio ambiente com um inventário da biodiversidade e de todos os recursos naturais da região.
* O Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2025, divulgado pelo Imazon, apontou que as dez cidades com pior qualidade de vida do Brasil estão na Amazônia Legal, que reúne os Estados do Acre, Amapá, Amazonas, norte de Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Maranhão. O IPS Brasil 2025 é composto por 57 indicadores sociais e ambientais oriundos de fontes públicas. O IPS é dividido em três dimensões do progresso social (Necessidades Humanas Básicas, Fundamentos do Bem-estar e Oportunidades).
Os povos originários também plantam. Como está o desenvolvimento da agricultura dentro das reservas? Quais as tecnologias que utilizam no manejo da terra?
Além da coleta e da caça, as populações indígenas também usam de uma agricultura rudimentar e de baixa tecnologia, hostil ao meio ambiente, com queimadas conhecidas por coivaras. É preciso dotar as comunidades indígenas de meios modernos que aumentem a produtividade da sua atividade agrícola e reduzam os danos ambientais por elas criados.
Qual a real situação dos povos indígenas em relação à terra?
O Brasil adotou uma solução falsa de demarcações de terras indígenas em vastas áreas como se isso protegesse a vida dessas comunidades. O resultado é que você tem terras indígenas como a dos Ianomâmi, em Roraima, com área superior ao Estado de Santa Catarina, e os indígenas vivendo na mais absoluta pobreza dentro dela.
Quem representa legitimamente os povos indígenas? Como as ONGs tem agido para se aproximarem da causa dos povos originários?
A técnica usada pelas ONGs é cooptar algumas lideranças indígenas e transferi-las das suas aldeias para metrópoles do Brasil ou do exterior.

Aldo Rebelo tem sua trajetória na vida pública focada na defesa nacional e no desenvolvimento, inclusive da região amazônica, propondo uma agenda que contemple o meio ambiente e a produção agropecuária.
Foto: Giba/Ascom MCTI
O Brasil poderia seguir o mesmo caminho dos Estados Unidos em relação à utilização da terra para produção agropecuária, área de preservação permanente e reservas?
A legislação dos Estados Unidos é muito permissiva e não é modelo para o Brasil. Mas o Brasil poderia aproveitar a Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP-30, a ser realizada em Belém, para propor um debate sobre um Código Florestal mundial, que não fosse tão permissivo quanto as normas dos países ricos, mas não fosse também tão rigoroso quanto a lei brasileira.
Como conciliar produção agropecuária e proteção aos povos indígenas?
Os macuxis de Roraima já fazem um manejo próprio do gado nos extensos campos do Estado, e outras populações indígenas ficaram conhecidas por sua habilidade de cavaleiros como os guaicurus do Mato Grosso do Sul; os parecis são excelentes agricultores. Eles são a prova de que é possível produzir e proteger.
A insegurança alimentar é um indicador, entre outros, da vulnerabilidade das comunidades que vivem na Amazônia Legal, bem como em outras regiões do planeta. Qual o papel das novas tecnologias no campo para garantir o alimento na mesa de todos?
A agropecuária moderna exige, além dos recursos naturais, conhecimento de agricultura tropical, de agricultura de precisão como condição para ampliar a produtividade e proteger o meio ambiente.
As lideranças do agronegócio estão preparando uma pauta para discutir na COP-30. Qual o principal desafio do setor que deve ser levado para a cúpula ambiental?
Apresentar a dupla agenda da proteção e do desenvolvimento como já foi tradição da nossa diplomacia. O Brasil não pode renunciar ao meio ambiente em nome do desenvolvimento e nem pode renunciar ao desenvolvimento em nome do meio ambiente.
Em julho do ano passado, o senhor em audiência pública da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) na Câmara dos Deputados disse: “Essa cúpula que está sendo organizada em Belém é contra o Brasil”. O senhor ainda pensa que o Brasil vai ser colocado no banco dos réus durante a COP-30?
Não penso, eu tenho certeza. O meio ambiente é uma causa humanitária, generosa e nobre usada como pretexto para defender os interesses dos países ricos e congelar o poder econômico mundial, por meio de uma doutrina que protege o desenvolvimento dos países que já alcançaram esse estágio e converte o desenvolvimento dos subdesenvolvidos em uma ameaça ao planeta. É o que um teólogo norte-americano chamou de corrupção da virtude, que é o uso de uma causa virtuosa para fins que de virtuosos nada têm.
A que o senhor atribui a intromissão de países como os Estados Unidos e da Europa no gerenciamento da Amazônia? Esse tema deverá ser tratado na COP-30, que ocorrerá no Pará, Estado considerado a porta de entrada para a floresta? Vivemos um “neocolonialismo verde” ?
A ideia é converter a Amazônia em um gigantesco ativo para o mercado global de crédito de carbono. Ali não haveria mais lugar para uma atividade econômica produtiva ligada à agropecuária ou agroindústria. Tudo isso seria removido para que a reserva legal dos países ricos compensasse seu direito de emitir gases de efeito estufa.
O fato de discutir a preservação da Amazônia, as questões dos povos indígenas, a situação das populações ribeirinhas no ambiente em que os problemas estão expostos, pode representar um olhar mais real e menos discursivo sobre como buscar uma solução para esse cotidiano vivido por esse povo tão sofrido?
Não discutirão a tragédia das populações indígenas, apenas a usarão para alcançar seus objetivos.

Autor do livro O Quinto Movimento em que propõe uma reflexão sobre a formação do Brasil e os caminhos para crescer, Aldo Rebelo defende o uso de tecnologias de ponta na agricultura para garantir a segurança alimentar com a redução dos impactos à natureza.
Foto: Acervo pessoal
Nas discussões sobre mudanças climáticas, na maioria das vezes, atribui-se a responsabilidade à agropecuária. Não há aí uma simplificação do tema, pois o planeta sofre com a poluição urbana, deficiência sanitária, falta de controle do lixo e resíduos químicos?
Aqui, mesmo na cidade de São Paulo, não há uma ONG interessada na poluição e morte do rio Tietê, mas muitas que aqui têm sede acham que o problema ambiental do Brasil é do sujeito que está criando uma vaca em Araçatuba (município do interior de São Paulo) ou no Mato Grosso.
Para o senhor, o que motiva esses constantes ataques dos ambientalistas em relação à produção agrícola e pecuária no Brasil?
Provavelmente porque esses ataques fazem parte das obrigações contratadas junto aos seus financiadores para agredir os agricultores brasileiros que com eles concorrem.
A saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e o posicionamento de Donald Trump, deixando claro que não vai se dobrar frente às restrições ambientais, podem desvalorizar a COP-30?
A saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris produziu um efeito positivo que é a demonstração de que essa agenda não tem importância para o país mais poderoso do mundo e, portanto, reduz a sua relevância para todos. Mas, ao mesmo tempo, os Estados Unidos seriam um importante aliado para um contraponto à agenda única do meio ambiente com uma outra do direito ao desenvolvimento.
As lideranças do agronegócio estão preparando uma pauta para discutir na COP-30. Qual o principal desafio do setor que deve ser levado para a cúpula ambiental?
A diplomacia brasileira deve assumir a defesa dos interesses nacionais propondo à Conferência essa dupla agenda: a proteção do meio ambiente e o direito ao desenvolvimento*.
*No capítulo 7 do livro O Quinto Movimento, Aldo Rebelo fala sobre os desafios da agricultura, pecuária e agroindústria, deixa um alerta: “A pressão sobre a agropecuária nacional vai crescer não apenas pela concorrência dos produtores norte-americanos e europeus. Há um elemento novo e mobilizador de grandes interesses internacionais e que combina com os interesses comerciais da agricultura e da pecuária dos Estados Unidos e da Europa: é a agenda do clima. A meta do milênio de zerar a emissão do carbono precisa ser compreendida para que se entenda a encruzilhada em que o Brasil se encontra”.

Para o escritor, a retomada do desenvolvimento está apoiada nas potencialidades da fronteira agrícola e da fronteira mineral.
Foto: Jose Cruz/Agência Brasil
Para o senhor, por que o agronegócio brasileiro é tão criticado no Brasil, embora as fazendas e as tecnologias estejam em constante inovação, que garantem a sustentabilidade da atividade, reduzindo os impactos ao meio ambiente?
A agropecuária do Brasil exerce uma competição muito dura para os concorrentes dos Estados Unidos e da Europa. É natural que eles procurem impor uma espécie de tributo ambiental e de logística para elevar o custo da produção brasileira. Ora uma norma que obriga um produtor do bioma Amazônia a renunciar a 80% de sua área produtiva, ora o bloqueio de ferrovias, como a Ferrogrão*, e de hidrovias, portos e rodovias pelo País a fora.
(*)A Ferrogrão foi projetada para ligar as regiões produtoras de grãos do Mato Grosso aos portos do Arco Norte, no Pará. A ideia é de que os trilhos fortaleçam a rota para exportação de soja e milho. No entanto, desde 2021, o projeto de viabilidade está suspenso no Supremo Tribunal Federal (STF) por uma ação do PSOL, que questiona a destinação de parte do Parque Nacional do Jamanxim (PA) à iniciativa da estrada de ferro. Posição em 1 de junho/2025.
Inclusive a tecnologia que chega para garantir a produção agropecuária com sustentabilidade ambiental, como a aviação agrícola, é atacada. Isso é uma referência de que o discurso de proteção ao meio ambiente é uma cortina de fumaça para deixar encoberto interesses comerciais de países europeus e dos Estados Unidos?
Tudo é usado como pretexto para criar dificuldades para essa atividade no Brasil, e muitas vezes o próprio Ministério Público, instituição do Estado brasileiro, funciona como o braço jurídico das ONGs.
O setor aeroagrícola é constantemente atacado, inclusive com a entrada de projetos de lei na esfera estadual e municipal pedindo a sua proibição. Qual seria o melhor caminho para o setor chegar até a sociedade para conscientizar sobre a importância da ferramenta na preservação ambiental?
O País precisa remover todas as normas que bloqueiam a produção da segurança alimentar no Brasil. Esta é a tarefa que caberá ao próximo governo e ao próximo Congresso.

Aldo Rebelo repudia os discursos importados propagados por ONGs financiadas por dinheiro e interesse internacionais para difamar o agro brasileiro, como forma de manter o Brasil estagnado.
Foto: Reprodução
A tecnologia empregada no campo, o que inclui a aviação agrícola, aumentou a produção e freou o avanço da fronteira agrícola. Pode-se dizer que a tecnologia no campo protege o meio ambiente e as terras indígenas?
Como já disse, o conhecimento e a tecnologia são os principais aliados da produtividade e da proteção ambiental.
Qual o impacto econômico para o país ao restringir tecnologias, produtos e formas de produção?
Encarecimento da atividade e inflação de alimentos, redução da produção e dos tributos por ela recolhidos, e das divisas resultantes das exportações.
Com tantas mazelas, como chegaremos a uma sociedade próspera e equilibrada socialmente, conforme o senhor sugere em seu livro O Quinto Movimento?
Com a retomada do desenvolvimento apoiada nas grandes potencialidades da nossa fronteira agrícola e da nossa fronteira mineral. São os excedentes prometidos por essas atividades que permitirão ao Brasil o caminho da reindustrialização que sepulta definitivamente a falsa dicotomia entre sermos um país agrícola ou industrial.
Neste contexto, qual o futuro do agro e das suas ferramentas altamente tecnológicas, como a aviação agrícola?
O Brasil deve dispor de todos os meios ao alcance para elevar o seu protagonismo na segurança alimentar do próprio País e do mundo. Naturalmente, entre esses instrumentos a aviação agrícola cumpre, respeitando os cuidados e as normas ambientais, um papel de grande relevância.