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Quem supervisiona a segurança quando a operação está no auge da safra?

A aviação agrícola desempenha um papel estratégico na produtividade do agronegócio brasileiro. Entretanto, durante o auge da safra, quando as janelas operacionais são limitadas e a demanda por aplicações aumenta, a pressão por produtividade pode elevar a exposição a riscos operacionais. É justamente nesse período que a supervisão da segurança precisa ser mais consistente, estruturada e efetiva.A questão central não é apenas se existem procedimentos de segurança, mas se eles continuam sendo cumpridos quando o tempo é curto, as jornadas se intensificam e cada hora de aeronave disponível representa um importante recurso econômico.

Publicado em: 23/10/26, 
às 07:00, 
por IBRAVAG

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Gabriel Andreas Myriantheus
Mestrando em Segurança de Voo e Aeronavegabilidade Continuada pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e aluno do curso prático de Piloto Privado de Avião pela Aviate. Conhecimento na interface entre regulação aeronáutica e a dinâmica do agronegócio, sua atuação é focada na transição normativa do RBAC 137 e na aplicação prática da Regulação Responsiva no campo. Pesquisador ativo em fatores humanos e cultura de risco, é o desenvolvedor de novos frameworks de segurança proativa, projetados especificamente para elevar a resiliência operacional e mitigar gaps na linha de frente no setor aeroagrícola.

A pressão operacional e o fator humano

O aumento da atividade pode produzir uma combinação de fatores que merece atenção: fadiga, redução do tempo destinado ao planejamento, repetição de tarefas, pressão por cumprimento de cronogramas e tendência à normalização de desvios operacionais.

Na aviação agrícola, essas condições assumem particular relevância. As operações em baixa altura exigem elevado nível de atenção, precisão na execução das manobras e avaliação contínua das condições ambientais. Obstáculos, relevo, redes elétricas, alterações meteorológicas, características da área de aplicação e condições da aeronave precisam ser consideradas em cada missão.

A experiência do piloto é indispensável, mas não elimina os efeitos da fadiga, da sobrecarga de trabalho ou das limitações humanas. Por isso, uma estrutura de segurança eficaz não pode depender exclusivamente da capacidade individual de reconhecer e administrar todos os riscos durante a operação.

É necessário que a organização ofereça condições para que decisões seguras sejam tomadas, inclusive quando isso significa interromper, adiar ou cancelar uma missão.

Quem é responsável pela supervisão da segurança?

A segurança operacional não deve ser atribuída exclusivamente ao piloto, tampouco pode ser considerada uma responsabilidade restrita ao gestor ou ao responsável designado pela empresa.

O piloto responde pelas decisões e pelos procedimentos que lhe competem na condução da aeronave. O operador, por sua vez, deve organizar a atividade de maneira que os requisitos aplicáveis sejam cumpridos, os perigos sejam identificados e os riscos sejam adequadamente avaliados e tratados.

A gestão deve assegurar que o planejamento, a manutenção, a preparação das missões, a qualificação dos profissionais e o acompanhamento das condições operacionais sejam compatíveis com a complexidade da atividade.

Isso exige supervisão que ultrapasse a conferência documental. Uma operação pode apresentar registros formalmente organizados e, ainda assim, conviver com vulnerabilidades relacionadas à rotina, à comunicação, à manutenção ou à tomada de decisões.

O desafio está em verificar se os controles previstos funcionam na prática, se as medidas preventivas são cumpridas e se as mudanças nas condições de trabalho estão sendo devidamente consideradas.

Gerenciamento de risco: da formalidade à prática

O Regulamento Brasileiro da Aviação Civil nº 137 (RBAC 137) estabelece requisitos aplicáveis às operações aeroagrícolas. Sua aplicação deve estar associada a uma compreensão efetiva dos perigos e dos riscos presentes na atividade, observadas também as instruções suplementares e demais normas pertinentes.

O gerenciamento de risco não deve ser tratado como uma atividade isolada, realizada apenas para atender a uma exigência administrativa. Precisa fazer parte do planejamento e da execução das operações, com revisão sempre que houver mudanças relevantes nas condições operacionais.

Durante o auge da safra, isso significa acompanhar, entre outros aspectos:

  • Condições da aeronave: cumprimento dos requisitos de manutenção, tratamento de discrepâncias e verificação da disponibilidade operacional.
  • Condições do piloto: qualificação, aptidão para o serviço, carga de trabalho e gerenciamento da fadiga, conforme os requisitos aplicáveis.
  • Condições meteorológicas: avaliação das informações disponíveis e respeito às limitações operacionais.
  • Planejamento das missões: análise das características das áreas, obstáculos, abastecimento, carga e demais parâmetros relevantes.
  • Organização do trabalho: dimensionamento de recursos, comunicação entre os envolvidos e prevenção de pressões incompatíveis com uma operação segura.
  • Registro e análise de ocorrências: tratamento de perigos identificados, desvios e relatos que possam revelar falhas nos controles existentes.

Esses elementos não devem ser avaliados apenas no início da temporada. A supervisão precisa acompanhar a evolução da operação, porque os riscos podem mudar à medida que aumentam a demanda, a frequência das missões e a complexidade da rotina.

Tecnologia como instrumento de supervisão

A tecnologia pode ampliar a capacidade de supervisão ao integrar informações que, em processos fragmentados, permanecem dispersas entre formulários, planilhas, documentos e sistemas diferentes.

Plataformas digitais podem facilitar o acompanhamento das missões, a organização dos registros, a identificação de pendências, o acesso às informações meteorológicas e a análise de tendências operacionais. Quando adequadamente projetados e validados, esses recursos ajudam os gestores a reconhecer situações que exigem atenção antes que se convertam em eventos mais graves.

A rastreabilidade também permite compreender melhor como determinada decisão foi tomada, quais informações estavam disponíveis e quais procedimentos foram registrados. Isso favorece a investigação de ocorrências e a avaliação da eficácia das medidas preventivas.

Entretanto, é importante estabelecer um limite claro: tecnologia não substitui supervisão competente, treinamento, manutenção adequada ou julgamento profissional. Um sistema digital só contribui efetivamente para a segurança quando trabalha com dados confiáveis, critérios operacionais consistentes e responsabilidades bem definidas.

Além disso, o excesso de alertas, a duplicação de registros e a criação de novas tarefas administrativas podem comprometer os benefícios esperados. A tecnologia deve simplificar o acesso à informação e apoiar decisões, não desviar a atenção do piloto de suas atribuições essenciais.

Indicadores para avaliar a segurança durante a safra

Uma gestão madura não avalia a segurança apenas pela ausência de acidentes. A inexistência de ocorrências em determinado período não significa, necessariamente, que todos os riscos estejam sob controle.

É importante acompanhar indicadores preventivos, como a identificação de perigos, o tratamento de pendências, a realização de treinamentos, o cumprimento dos procedimentos e a implementação das ações corretivas. Também é necessário analisar incidentes, desvios e tendências, respeitando os critérios de registro e comunicação aplicáveis.

Essas informações devem servir para melhorar os controles, e não apenas para produzir relatórios. Quando um indicador revela uma fragilidade, a organização precisa investigar suas causas, estabelecer medidas proporcionais ao risco e verificar se as ações adotadas produziram o resultado esperado.

Uma cultura de segurança consistente também depende de um ambiente em que os profissionais possam comunicar perigos e situações inseguras sem receio de punições indiscriminadas, sem prejuízo da responsabilização adequada quando houver conduta deliberadamente imprópria.

Produtividade e segurança não são objetivos opostos

Existe uma percepção equivocada de que interromper uma operação diante de condições inseguras representa necessariamente perda de produtividade. Na realidade, decisões preventivas podem evitar consequências muito mais graves, incluindo danos humanos, perda de aeronaves, interrupções prolongadas da safra e prejuízos financeiros.

A eficiência operacional sustentável não consiste em realizar o maior número possível de missões a qualquer custo. Consiste em executar o trabalho dentro dos limites estabelecidos, com planejamento adequado, recursos compatíveis e capacidade de responder às mudanças nas condições operacionais.

Cabe aos gestores transmitir essa orientação de forma inequívoca: metas comerciais e cronogramas de aplicação não podem se sobrepor aos requisitos de segurança.

A segurança precisa estar presente justamente quando a pressão aumenta

O auge da safra é um teste importante para a maturidade operacional de uma empresa aeroagrícola. É nesse período que procedimentos, recursos, liderança e cultura de segurança são submetidos às maiores exigências.

A supervisão efetiva depende de responsabilidades claramente definidas, gerenciamento contínuo de riscos, profissionais capacitados, informações confiáveis e mecanismos capazes de identificar e corrigir vulnerabilidades.

A pergunta que dá título a este artigo deve, portanto, provocar uma reflexão em todo o setor: quem supervisiona a segurança quando a operação está no auge da safra?

A resposta não pode ser simplesmente o piloto, o gestor ou um documento assinado. A segurança precisa ser sustentada por uma estrutura operacional na qual cada responsável cumpra seu papel, os riscos sejam acompanhados continuamente e qualquer profissional tenha condições de agir diante de uma situação insegura.

Porque a verdadeira maturidade de uma operação aeroagrícola não se revela apenas quando tudo funciona dentro do planejado, mas principalmente quando a pressão aumenta e a segurança continua sendo inegociável.

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