FOTO1 - Vanderlei Ataide - Aprosoja PA-1

Agro brasileiro se afirma na agenda climática

Presidente da Aprosoja/PA pede mais espaço para o setor nas negociações globais da Conferência das Nações Unidas

Publicado em: 08/01/26, 
às 05:00, 
por IBRAVAG

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A realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em Belém (PA), mostrou a força de um agronegócio que está atento à sustentabilidade, segurança alimentar e descarbonização. “Marcamos território, mostramos que o agro existe e tem o que apresentar”, afirma o presidente da Associação dos Produtores de Soja do Estado do Pará (Aprosoja/PA), Vanderlei Ataides.

Na avaliação do produtor rural, não existe transição climática sem o agro. Por isso, é importante que o setor participe das discussões. E neste ano, pela primeira vez na história da COP, o campo teve um espaço: a AgriZone. A estrutura montada junto à sede da Embrapa, que coordenou os trabalhos no local, conforme Ataides, contou com uma programação muito interessante.

No entanto, a distância da Blue Zone e da Green Zone — onde delegações internacionais, ONGs e formadores de opinião circularam —, na visão do produtor rural, limitou o alcance das palestras. “As pessoas que constroem narrativas contra o agro não passaram pelo espaço. O mundo não nos ouviu”, avalia Ataides. Para ele, a desconexão geográfica impediu que o setor neutralizasse visões hostis e estereótipos ainda presentes no debate climático global.

INTEGRAÇÃO

Ataídes considera que a prioridade, daqui para frente, deve ser integrar a AgriZone ao espaço central das próximas COPs. “Sem os produtores rurais juntos, o debate fica incompleto. A natureza é nossa parceira. Quem vive da agricultura e pecuária precisa preservar água, solo e floresta para continuar produzindo”, afirma.

Ele destacou ainda que os produtores rurais vivem em suas propriedades com suas famílias e têm grande preocupação com a preservação ambiental (matas ciliares, recursos hídricos, áreas de preservação permanente – APPs), sendo vigias e guardiões de suas terras. Além disso, ressalta que a agricultura e a pecuária brasileiras utilizam tecnologia avançada que resulta em baixa emissão de carbono, sendo mais eficientes que as de países europeus, por exemplo.

O dirigente também lamentou que o agro brasileiro demorou a se comunicar com o mundo e hoje paga o preço disso. “Durante décadas, o produtor cuidou da porteira para dentro. Agora estamos acordando para a necessidade de enfrentar narrativas distorcidas e mostrar o que realmente fazemos”, pontua Ataides.

Apesar dos problemas, considera que a COP30 deixou um recado: a pauta do agro entrou definitivamente no radar do clima — e a Agrizone tende a permanecer. Mas reforça que o Brasil perdeu a chance de mostrar ao planeta, em casa, a força de uma produção que convive com preservação. “Faltou visibilidade. Mas seguimos preparados. O agro brasileiro merece ser visto como ele é: eficiente, sustentável e essencial”, pontua.

PREPARAÇÃO

Entidades do agronegócio brasileiro se prepararam para o evento, elaborando documentos que sinalizam que o setor está alinhado com as boas práticas ambientais e propondo temas de discussão. Inclusive, o Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) defendeu a inclusão do papel da tecnologia de aplicação como aliada da sustentabilidade e da inovação no campo, no texto do Instituto Pensar Agropecuária (IPA).

Conteúdo técnico e científico apresentado na conferência deve ser amplificado

VITRINE
Fava Neves destaca trabalho para mostrar o que o agro brasileiro tem de melhor.
Foto: Acervo pessoal

“Reduzimos a hostilidade. Fizemos um trabalho muito bem feito de mostrar o que temos de bom”, afirma o engenheiro agrônomo Dr. Marcos Fava Neves, professor da Universidade de São Paulo (FEA-RP/USP). Ele também é sócio-fundador da Harven Agribusiness School. Referência internacional em agronegócio, o conselheiro da Ifama — entidade global que reúne líderes, pesquisadores e empresas do setor — defende que o conteúdo técnico e científico apresentado seja amplificado.

Para o professor, a AgriZone — espaço dedicado ao agro dentro da programação — foi um dos destaques do evento. E acredita que deva continuar nas próximas COPs. “Agora precisamos usar as mídias sociais e espalhar mundialmente tudo o que foi debatido, como fizemos no congresso da Ifama”, destaca Fava Neves. Inclusive, durante a Conferência Mundial de Agronegócio e Alimentos – Ifama 2025, que ocorreu em junho, em Ribeirão Preto, foi construída uma Carta Oficial da Conferência Mundial do IFAMA Brasil à COP30, documento que reforça o papel do agronegócio brasileiro como parte das soluções para as mudanças climáticas.

Objetivo Global de Adaptação inclui agricultura como área estratégica

“A COP30 marcou um ponto de virada. A gente viu um esforço muito maior de olhar para métricas, mecanismos e implementação, e menos para narrativas que colocavam a agricultura brasileira como vilã.” A avaliação é do superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Confederação Nacional da Indústria, Davi Bomtempo, que destaca que o maior ganho para o setor foi a mudança de foco: a saída do discurso para mecanismos de execução. Isso, segundo ele, abre espaço para investimento, tecnologia e modernização — pontos que fortalecem a agroindústria.

Segundo Bomtempo, o agronegócio teve ganhos diretos na COP30, que ele divide em três frentes. A primeira, a aprovação dos 59 indicadores do Objetivo Global de Adaptação incluindo a agricultura como área estratégica. Isso direciona financiamento e apoio para modernizar a produção frente às mudanças climáticas. Outro ponto diz respeito à proteção comercial, que evitará que medidas climáticas virem barreiras disfarçadas. “Para um país exportador como o Brasil, isso é crucial”, reforça.

E a terceira frente diz respeito à importância da indústria na evolução do agronegócio. Por exemplo, tecnologias como agritechs, biotechs e nanotechs devem criar, somente no Centro-Oeste, mais de 200 mil empregos até 2027, segundo o Observatório Nacional da Indústria. “Isso mostra o tamanho da oportunidade”, pontua o gestor.

EVOLUÇÃO
Bomtempo destaca que mesmo sem a presença dos Estados Unidos, temas-chave avançaram com consistência

AVANÇOS

Bomtempo destaca que, mesmo com a ausência dos Estados Unidos, temas-chave como financiamento climático e mercados regulados avançaram de forma consistente, puxados por iniciativas lideradas pelo Brasil. Um dos marcos foi o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), que mobilizou US$ 6,6 bilhões de países como Noruega, Alemanha, França e Indonésia. Outro destaque foi a Coalizão Aberta de Mercados de Carbono Regulatórios, apoiada por China, União Europeia, Canadá e México, reforçando a importância dos mercados regulados na descarbonização.

Entre os avanços estruturais, o superintendente destaca o Pacote de Belém, que trouxe o Acelerador Global de Implementação e a Missão Belém para 1,5°C — ferramentas que transformam metas em ações. Também houve avanço no financiamento com o Roadmap Baku–Belém para US$ 1,3 trilhão, reafirmando a obrigação de países desenvolvidos em mobilizar recursos.

A iniciativa privada teve protagonismo por meio da Sustainable Business COP (SB COP), proposta pela CNI. Para Bomtempo, o fórum deve ser permanente, garantindo acompanhamento técnico e acelerando a execução dos compromissos. “Implementação depende de investimento, tecnologia e escala. Tudo isso passa pelo setor produtivo”, afirma.

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