As usinas de etanol de grãos começam a chegar no Rio Grande do Sul e, com elas, novos mercados e oportunidades abrem-se para os agricultores. O movimento não está restrito ao Estado, que hoje é um dos maiores produtores de biodiesel do Brasil. O motivo está diretamente ligado à agenda da sustentabilidade. O chefe-geral do Centro Nacional de Pesquisa em Agroenergia – Embrapa Agroenergia, o engenheiro agrônomo Alexandre Alonso Alves, enfatiza: “o desenvolvimento dos biocombustíveis no País depende obrigatoriamente do desenvolvimento da agricultura”.
Conforme o pesquisador, que é mestre (2008) e doutor (2010) em Genética e Melhoramento pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), o avanço da bioenergia no País tende a reforçar o papel do campo como base de uma economia de baixo carbono e de novas cadeias industriais. No passado, a agenda estava concentrada na segurança energética; hoje, ela também responde às metas climáticas e à necessidade de reduzir emissões de carbono.
Nesse contexto, a biomassa agrícola ganha protagonismo não apenas para a produção de etanol e biodiesel, mas também para uma nova geração de bioprodutos. O conceito de biorrefinaria, que começa a se consolidar no Brasil, permite transformar a biomassa em biocombustíveis, bioquímicos, bioinsumos e biomateriais. Para Alonso, trata-se de um movimento que integra a agenda de bioenergia à estratégia de neoindustrialização do País.
Com uma agricultura competitiva, capacidade científica consolidada e marcos regulatórios que estimulam investimentos, o País reúne condições para ampliar a produção de biocombustíveis tradicionais e avançados. Alonso avalia que o Brasil tem vantagens para transformar o campo em um dos principais motores da transição energética global. Cenário em que o avanço do etanol de grãos e de novas rotas de bioenergia tende a reforçar o vínculo entre inovação tecnológica, sustentabilidade e renda no meio rural.
Além das questões envolvendo a descarbonização, que implica mudança da matriz energética por uma mais sustentável, a expansão das usinas de biocombustíveis pode estar atrelada também à segurança energética, como ocorreu com o desenvolvimento do etanol de cana-de-açúcar, especialmente a partir da década de 1970?
Para responder essa pergunta, é necessário contextualizar a questão dos biocombustíveis no Brasil e como eles se relacionam especificamente com a agricultura. Sempre enfatizo que o desenvolvimento dos biocombustíveis no País depende obrigatoriamente do desenvolvimento da agricultura. Os biocombustíveis não são apenas de origem renovável, mas também de origem biorenovável, provenientes de biomassa produzida de forma dedicada, em alguns casos, ou de resíduos. Quando a agenda de agroenergia surgiu no Brasil há quase cinco décadas, tratávamos a questão dos biocombustíveis, da agroenergia, dentro de um contexto de segurança energética. Ou seja, buscava-se viabilizar o acesso da população a combustíveis a custos competitivos. Isso porque, como mencionado, o Brasil vivia na década de 1970 uma crise do petróleo. Assim, decidiu investir na produção de agroenergia, principalmente com etanol, aproveitando uma cultura já bem estabelecida da cana-de-açúcar. Naquele momento, considerava-se que a agenda de agroenergia e biocombustível estava fortemente vinculada à questão de segurança energética. Justificativa semelhante à adotada quando o Brasil, décadas depois, investiu no Plano Nacional de Produção e Uso de Biodiesel* para oferecer uma alternativa biorenovável também para veículos de Ciclo Diesel**, veículos pesados, e não somente para veículos de Ciclo Otto***. De lá para cá, essa agenda foi modificada.
*O Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB) foi lançado em 2004 e integrado, em 2024, ao Programa Combustível do Futuro, que aumentou a mistura obrigatória de biodiesel para 14% em 2024 e 15% em 2025.
**Veículos de Ciclo Diesel utilizam injeção direta de combustível e alta compressão para gerar ignição por calor (sem velas), ideais para alto torque e carga.
***Veículos de Ciclo Otto utilizam velas de ignição para queimar a mistura ar-combustível, oferecendo maior rotação e potência para veículos leves.
Qual foi essa mudança estratégica?
A agenda de biocombustíveis, inicialmente, estava estritamente relacionada à segurança energética. Hoje, ela dialoga com a agenda climática. Afinal, são uma alternativa eficiente para mitigar as emissões de CO2 na atmosfera. Portanto, a agenda de biocombustível está alinhada à sustentabilidade e à descarbonização, temas que ganharam grande relevância nos últimos anos. Vemos vários países, inclusive o Brasil, movendo-se em direção ao mercado de carbono. Em função disso, a agenda de biocombustíveis também se expandiu. Quando se falava em agroenergia no Brasil, há cerca de cinco anos, pensava-se imediatamente em etanol e biodiesel. Atualmente, ao abordar agroenergia e biocombustíveis, especialmente em relação aos combustíveis líquidos, consideramos também a bioeletricidade. Hoje falamos em etanol de primeira e segunda geração, etanol amiláceo, biodiesel, biodiesel renovável, HVO*, combustível sustentável de aviação, biogás, biometano, hidrogênio, refil, entre outros. A agenda de biocombustíveis está vinculada à sustentabilidade e à questão climática por conta dessa vinculação com a agenda climática e, principalmente, com a agenda de transição energética, ou seja, migração de fontes fósseis para fontes biorenováveis, mais limpas.
*HVO é a sigla de Hydrotreated Vegetable Oil, também chamado de diesel verde renovável, que é quimicamente idêntico ao diesel fóssil, oferecendo alta performance, estabilidade e uma redução de até 90% nas emissões de CO2.
Como está esse processo de transição energética?
Houve a aprovação da Lei Combustível do Futuro*, que estabelece um novo marco regulatório para permitir a expansão da produção e uso desses biocombustíveis. A legislação trata do aumento da mistura de etanol e biodiesel, estabelece marcos regulatórios para SAF**, biometano e captura de carbono. Também ocorreu a aprovação do marco legal do hidrogênio***. Assim, os biocombustíveis têm uma interface interessante com a agenda de neoindustrialização.
* Lei Combustível do Futuro – A Lei 14.993/2024 foi sancionada em outubro de 2024 para impulsionar a mobilidade sustentável e a descarbonização no Brasil. Ela aumenta a mistura de etanol na gasolina (podendo chegar a 35%), incentiva o diesel verde, biometano e o combustível sustentável de aviação (SAF).
**SAF (Sustainable Aviation Fuel – combustível sustentável de aviação).
*** O marco legal do hidrogênio de baixa emissão de carbono no Brasil foi sancionado em agosto de 2024 (Lei 14.948/2024), estabelecendo regras, incentivos fiscais e certificações para o setor

Alonso defende a descentralização da produção de bioenergia, para aproveitar a vocação agrícola de cada região do Brasil, trazendo ganhos logísticos tanto financeiros, quanto na redução da emissão de carbono.
Foto: Leandro Lobo
O que significa essa neoindustrialização em termos práticos?
Em vez de discutir como produzir apenas um biocombustível, alimento ou energia, busca-se uma agenda capaz de produzir de forma equilibrada e conjunta alimentos, múltiplos biocombustíveis, ou seja, múltiplos energéticos, e bioprodutos. Podemos fazer uma analogia com uma refinaria de petróleo, que processa petróleo e gás para entregar vários produtos: gasolina, querosene de aviação, nafta, produtos químicos, plásticos e outros materiais. No Brasil, estamos vinculando a agenda de biocombustíveis à agenda de neoindustrialização, de modo que uma biorrefinaria possa produzir, além de vários biocombustíveis, bioprodutos. Refiro-me a bioquímicos, químicos de origem renovável, biomateriais e novos processos. No contexto atual, com um novo conflito geopolítico impactando custos de combustíveis, e o aumento do preço do petróleo, que pode afetar o acesso a fertilizantes, é importante lembrar que, apesar do Brasil ser um dos principais produtores de gêneros alimentícios do mundo, é um grande importador de fertilizantes, principalmente nitrogenados, fosfatados e potássio. O aumento dos custos e a dificuldade de acesso a fertilizantes podem, de fato, ter impacto significativo. – Como podemos equacionar isso a longo prazo, obviamente? Permitindo que o Brasil produza mais biocombustíveis em substituição aos combustíveis fósseis e, também, bioinsumos para substituir fertilizantes. Hoje temos capacidade para produzir biofertilizantes, bioestimulantes e biodefensivos, que muitas vezes podem ser utilizados de forma complementar aos fertilizantes convencionais. Acredito também que a agenda de biocombustíveis pode ganhar novo impulso, novamente ligado à segurança energética.
Hoje o Brasil é o segundo colocado no ranking mundial de produtores de bioenergia. Há potencial para liderar esse setor globalmente?
Certamente. Os Estados Unidos são, de longe, o maior produtor de etanol do mundo e o utilizam misturado na gasolina. O RenovaBio* foi inspirado na política de descarbonização da Califórnia (Low Carbon Fuel Standard – LCFS). Em relação ao biodiesel, o Sudeste Asiático é destaque na produção. O Brasil deve continuar grande produtor de etanol e expandir a produção de biodiesel, principalmente, com o aumento previsto da mistura de biocombustíveis nos de origem fósseis. Ainda, o País é visto como chave para a produção de combustíveis avançados, como SAF, biobunker marítimo**, hidrogênio. Sem uma participação efetiva do Brasil, a produção global de HVO, SAF, hidrogênio, etc., ficará aquém das necessidades mundiais. O Brasil tem potencial para continuar expandindo a produção de biocombustíveis tradicionais, além de uma grande oportunidade nos avançados. Pode se tornar não apenas fornecedor de matéria-prima, mas construir um novo parque industrial capaz de produzir e exportar biocombustível avançado.
*RenovaBio é a Política Nacional de Biocombustíveis do Brasil (Lei 13.576/2017), criada para incentivar a produção de combustíveis limpos, reduzir a emissão de gases de efeito estufa e cumprir as metas do Acordo de Paris. Baseia-se na certificação de usinas, metas de descarbonização para distribuidores e na comercialização de créditos de descarbonização (CBIOs).
** O combustível biobunker marítimo é uma alternativa sustentável ao bunker tradicional (HFO – Heavy Fuel Oil). Derivado da biomassa renovável, como óleos vegetais, gorduras animais ou resíduos orgânicos, reduz as emissões de gases de efeito estufa na navegação, alinhando-se às metas de descarbonização da Organização Marítima Internacional (IMO).
Como se daria esse avanço nesse setor de agroenergia?
Os biocombustíveis vêm, em grande parte, do contexto agrícola. Embora seja possível utilizar resíduos urbanos, como de estações de tratamento de esgoto, para produção de biometano, a projeção é que 90% da produção futura de biometano venha da agricultura, especialmente do setor sucroenergético. Há um vínculo entre produção de etanol e biometano, que utiliza resíduos como torta de filtro e vinhaça. O Brasil tem potencial devido à agricultura forte e sustentável, e quanto mais sustentável for a produção de biomassa, menor a pegada de carbono dos biocombustíveis. O País possui ciência de ponta, histórico de pesquisa agrícola e biotecnologia, além de marcos regulatórios que estimulam investimentos em biocombustíveis. Esses fatores permitem consolidar essa posição, expandindo a produção de combustíveis avançados e tradicionais.

Uma das estratégias apontadas pelo pesquisador para reduzir a pegada de carbono é bioeletrificar frotas usando motores híbridos, ou seja, elétricos movidos a biocombustível, assim dispensando as baterias.
Foto: Felipe Carvalho
Com a entrada em operação de usinas de etanol de grãos, o Rio Grande do Sul, que já produz biodiesel, pode transformar-se em polo de biocombustíveis. Qual é o potencial da região no mapa nacional da agroenergia?
Essa discussão é relevante. O Brasil, com dimensões continentais e realidades distintas em cada região, não possui um modelo único a ser replicado em todos os Estados. Existem modelos campeões em cada região, aproveitando biomassas e resíduos locais, o que traz um componente logístico interessante. A produção de biocombustíveis é concentrada em algumas regiões, como o Centro-Sul – São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul – e Nordeste para etanol, e o biodiesel acompanha a geografia da soja. No entanto, a mistura do biocombustível ao combustível fóssil é uniforme nacionalmente, gerando custos logísticos e de emissão de carbono. A ideia é produzir biocombustíveis de forma descentralizada, aproveitando contextos regionais. Com a entrada do etanol de milho, observa-se uma modificação nesse padrão de produção. Na Embrapa, acredita-se que os empreendimentos devem explorar vantagens comparativas locais e transformá-las em competitivas, garantindo sustentabilidade a longo prazo. No Rio Grande do Sul, por exemplo, há possibilidade de instalar usinas usando determinadas biomassas e resíduos, diferente do Mato Grosso ou Nordeste. Essa diversificação de matérias-primas é essencial para a segurança do processo. O movimento tende a se estruturar futuramente com cada região identificando oportunidades baseadas em seu contexto agrícola e logístico.
O etanol de grãos e o de cana-de-açúcar têm as mesmas propriedades e desempenho?
Isso depende. Em termos energético e para uso em motores, o desempenho é equivalente. Contudo, podem apresentar performances diferentes em relação à pegada de carbono. O etanol pode ser produzido por diferentes vias. Embora as moléculas sejam iguais, o processo de produção pode resultar em variações na quantidade de carbono emitido por megajoule (MJ) de energia. Por exemplo, o etanol de cana-de-açúcar de primeira geração tem uma pegada de carbono; o de segunda geração, que utiliza resíduos, tem menor pegada, pois o carbono desses resíduos já foi incorporado anteriormente. O etanol de milho, de primeira ou segunda safra, também varia. No Brasil, o etanol de milho tem como base a produção da segunda safra. Mesmo dentro de processos similares, o etanol de palha de arroz, arroz ou milho pode apresentar performances distintas, dependendo do manejo agrícola. No RenovaBio, política nacional de biocombustíveis, foi instituído um parâmetro chamado nota de eficiência energética ambiental, que mede quantos gramas de CO2 equivalente são emitidos por megajoule (MJ) de energia, por meio de análise de ciclo de vida que contabiliza entradas e saídas de carbono. Por exemplo, um campo que utiliza tratores a diesel e outro a biometano, ou fertilizantes convencionais versus bioinsumos, defensivos tradicionais versus controle biológico; todos esses fatores impactam as emissões de carbono. Pode-se ter o mesmo etanol de cana-de-açúcar de uma usina com menor nível de CO2 do que de outra; o etanol de milho do produtor A pode ser diferente do do produtor B. Isso pode impactar o acesso a mercados, inclusive internacionais. A União Europeia, por exemplo, estabelece critérios rígidos quanto à biomassa e aos fatores de emissão para a produção de combustíveis. A emissão do etanol de milho americano é diferente da do brasileiro, pois lá se utiliza gás natural para aquecer as caldeiras, enquanto no Brasil se usa cavaco de madeira ou outras fontes renováveis. As pegadas de carbono são muito diferentes.
*A produção do etanol de grãos necessita de grande quantidade de energia para aquecer as caldeiras e extrair os açúcares. O processo para se chegar ao etanol de cana-de-açúcar é diferente.

Chefe-geral da Embrapa enfatiza que a agenda de biocombustíveis está alinhada à agenda de neoindustrialização e bioprodutos, além de incorporar também a questão da economia circular, dando novos usos aos resíduos.
Foto: Leandro lobo
O uso de grãos para produzir etanol indica uma mudança estrutural na agricultura brasileira ou ainda se trata de um movimento pontual?
Considero que é um movimento bastante consolidado. A produção de etanol de milho já responde por mais de 25% da produção total de etanol do País. Novos empreendimentos estão sendo anunciados e instalados, inclusive no Nordeste e Sul. Trata-se de um movimento consolidado. O etanol de grãos, especialmente de milho, continuará ganhando espaço. Quando se fala em Combustível do Futuro, há perspectiva de ampliar misturas e a produção de etanol. Não se trata de competição entre etanol de milho e de cana-de-açúcar, pois, com maior demanda por etanol, abrem-se novos espaços de mercado. Outro ponto relevante é que o etanol, além de biocombustível, é precursor de outras moléculas, como combustível sustentável de aviação (SAF) por uma rota de etanol chamada Alcohol-to-Jet (ATJ)*. O etanol cresce tanto na utilização direta quanto como intermediário para outros produtos, inclusive hidrogênio de baixa emissão de carbono. Tradicionalmente, o hidrogênio é produzido por quebra da molécula de água, mas há rota em que se quebra a molécula de etanol. Há mais hidrogênio no etanol do que na água. Com mais demanda de etanol como combustível e como intermediário para outros produtos, inclusive na alcooquímica para produção de novos bioquímicos, há espaço para todos crescerem no contexto agrícola. Assim, acredito que o movimento do etanol de grãos é consolidado e tende a expandir.
*Alcohol-to-Jet (ATJ é uma tecnologia de conversão de álcoois (como etanol, produzido da cana-de-açúcar, milho ou resíduos) em Combustível Sustentável de Aviação (SAF.)
A produção de etanol pode mudar a forma como trigo, milho, arroz, entre outros grãos, são cultivados no Sul do país, especialmente em relação à área plantada, tecnologia e perfil de cultivares?
Se quisermos adentrar o mercado de carbono, a adoção de práticas de manejo que resultam em menor pegada de carbono tem efeito positivo. No caso do etanol de cana, várias usinas buscam implementar novas práticas produtivas. No RenovaBio, a meta crescente de descarbonização estimula a produção mais eficiente. Isso incentiva a adoção de novas práticas, podendo impactar o manejo das culturas. A agricultura brasileira já está migrando de modelo: primeiro com expansão de área, depois com ganhos de produtividade via tecnologia, e agora vivemos o momento da sustentabilidade e multifuncionalidade. Há mudança gradual nos sistemas de produção, com o biocombustível como fator adicional, não único, de estímulo dentro da competição.
A Embrapa Clima Temperado (Pelotas/RS) desenvolveu uma variedade de arroz, a BRS AG, destinada à produção de etanol e alimentação animal. Há trabalhos voltados a melhorar a performance de outros grãos?
Há iniciativas voltadas para o sorgo, além de trabalhos na própria cana-de-açúcar e milho. Várias ações buscam produzir biomassas mais adaptadas ou propícias ao processamento industrial. Esse movimento ocorre também em outras culturas.
Ao falar na expansão do etanol de grãos, ou mesmo da cana, ainda há fronteira agrícola para avançar? Ou o Brasil vai investir na produtividade?
Historicamente, a agricultura brasileira cresceu mais em produtividade do que em área. Em culturas como cana-de-açúcar, considerando o zoneamento agroecológico e áreas plantadas atuais, há algum espaço para expansão, mas essa deve ser coordenada com outras culturas e aptidões regionais. Mas entendo que os principais ganhos virão da produtividade agrícola e industrial, como o uso de resíduos para produção de biocombustíveis. O grande salto continuará vindo da produtividade, com biotecnologia vegetal e industrial desempenhando papel central.
A expansão do etanol de grãos marca uma virada na agregação de valor para esses produtos no País? Ou a tendência é de redução de preço? Como funciona para o produtor no campo?
À medida que se gera valor com múltiplos produtos, o impacto é positivo. O biocombustível é um produto industrial intrinsecamente associado ao produto agrícola, e é necessário desenvolver ambos segmentos de forma coordenada, pensando em como gerar valor para os produtores.
A expectativa da lavoura de grãos pode impactar toda a cadeia produtiva do campo. A aviação agrícola* pode se beneficiar com o avanço das usinas de etanol, especialmente por ser uma ferramenta alinhada às propostas de sustentabilidade?
Costumava brincar que se não estudasse, ia acabar trabalhando na roça. Hoje, para trabalhar no campo, é preciso estudar. Há forte movimento na agricultura brasileira de incorporação de automação, mecanização, digitalização. O modelo agrícola de internet das coisas, máquinas conectadas, drones e aplicações dirigidas para determinada região está em expansão à medida que se amplia a conectividade nas áreas rurais. Essas mudanças visando à sustentabilidade e menor pegada de carbono criam oportunidades para mecanização, automação e digitalização. As agendas podem ser acopladas. O futuro é biodigital: biológico e digital.
* Quando se fala em sustentabilidade, o Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) é signatário do Pacto Global da ONU e assumiu o compromisso de alinhar práticas aeroagrícolas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Alonso pontua que vê muitas oportunidades a partir da agenda dos biocombustíveis para gerar renda no campo, inclusive cita lei que obriga usinas a repassarem crédito de carbono a produtores de matéria-prima.
Foto: Felipe Carvalho
Qual é o potencial econômico dos coprodutos gerados a partir do processamento do milho, trigo e de outros grãos? Por exemplo, engarrafamento do CO2 para vender à indústria de refrigerantes e água gaseificada, estocar CO2 para comercializar crédito de carbono, entre outros produtos, como gluten vital, DDG?
A sustentabilidade financeira pode ser beneficiada por lógica de economia circular e biorrefinaria, que produz muitos produtos. Usinas de etanol de milho têm projetos de captura de carbono para injeção em fossa geológica visando a créditos de carbono no mercado. Esse movimento é acertado. Tecnicamente, é possível utilizar a biomassa de maneira integral, produzindo múltiplos biocombustíveis e bioprodutos de forma eficiente. Por isso, usinas de etanol de milho se consideram biorrefinarias, não apenas usinas de álcool.
Há usinas que vendem as cinzas do processo para outras indústrias utilizarem em seus produtos, dando novo uso ao resíduo da caldeira, em vez de simplesmente descartá-lo…
Isso é um negócio interessante, pois evidencia que a agenda de biocombustíveis está alinhada à agenda de neoindustrialização e bioprodutos. Incorporamos também a questão da economia circular, utilizando resíduos para geração de produtos e dando novos usos à biomassa. A agenda de biocombustíveis é contemporânea e moderna, dialogando com segurança, transição energética, sustentabilidade, carbono, economia circular e neoindustrialização. Vejo muitas oportunidades para o País investir nesse setor.
A usina sairá ganhando nessa operação. O produtor, que está no início do processo, também terá vantagens?
Há dois movimentos: verticalização, integrando fase agrícola e industrial em uma grade de produção, e avanços legislativos, como a lei que prevê a distribuição obrigatória de parte dos créditos de descarbonização (CBIO) a produtores de matéria-prima*. Houve avanços para assegurar a participação dos produtores nesse contexto. Como o biocombustível é produto industrial originado de produto agrícola, é necessário buscar formas de desenvolver toda a cadeia. O Brasil precisa desenvolver cadeias produtivas em suas diversas ramificações, e isso já está sendo exercitado em alguns casos, com avanços regulatórios.
* A Lei nº 15.082/2024, que altera o RenovaBio, estabelece a distribuição obrigatória de Créditos de Descarbonização (CBIOs) gerados pelas usinas aos produtores independentes de matéria-prima.

Perguntado sobre o uso da aviação agrícola, Alonso explica que essa mudança visando à sustentabilidade e menor pegada de carbono criam oportunidades para mecanização, tecnologias que estejam alinhadas à agenda de descarbonização.
Foto: Felipe Carvalho
Qual é o papel do etanol de grãos na estratégia brasileira de descarbonização e no processo de transição energética?
Há oportunidade de expandir a produção de etanol, tanto para uso direto quanto intermediário de outros biocombustíveis. O etanol como substituto da gasolina mitiga quase 90% das emissões de CO2. Muitas vezes, a sustentabilidade é medida pelo conceito “do poço à roda”, considerando as emissões de CO2 desde a produção até o uso no veículo. Ao expandir o conceito para “do berço ao túmulo”, incluindo produção dos materiais e operação da usina, obtêm-se contextos ainda mais interessantes. Costumamos dizer que a economia de carbono tem quatro Rs: estratégias para reduzir emissões, para retirar carbono da atmosfera, para reciclar e para reutilizar o carbono. E biocombustíveis são uma estratégia muito interessante para reciclagem de carbono, pois o carbono emitido pelo veículo é capturado pelas plantas durante a fotossíntese. Com práticas agrícolas específicas e estratégias de captura de carbono nas usinas, é possível obter balanços de carbono negativos, retirando carbono da atmosfera. A estratégia brasileira é aumentar a produção e o uso de biocombustíveis para promover essa reciclagem, evitando emissão de carbono novo de fontes fósseis. Quanto à eletrificação, depende da matriz energética: carros elétricos não emitem, mas é preciso computar o carbono da geração de energia. No Brasil, a matriz reduz as emissões em comparação a Europa ou Estados Unidos, que utilizam carvão ou gás natural. Outra estratégia é bioeletrificar frotas com motores híbridos que usam biocombustíveis e motores elétricos, dispensando baterias, porque o biocombustível eletrifica o motor. Portanto, a estratégia brasileira é expandir biocombustíveis, reciclar e retirar carbono, otimizar a utilização da biomassa e desenvolver a agricultura. O etanol, por ser combustível de uso direto e intermediário de combustíveis avançados, tem papel central. A melhor maneira de expandir biocombustíveis avançados é ampliar a produção de etanol primeiro.
Assim como o Proálcool, lançado em 1975, impulsionou a produção da cana-de-açúcar, quais tecnologias a Embrapa tem desenvolvido ou pesquisado para aumentar a eficiência e sustentabilidade das usinas de etanol de grãos hoje?
Hoje, a produção de biocombustível precisa ser de forma sustentável, adotando modelos, protocolos e práticas de baixo carbono. Já existem soja e milho baixo carbono, além de novos bioinsumos para uso em sistemas agrícolas, métodos e variedades. A Embrapa tem investido nesse sentido, inclusive na conversão da matéria-prima em biocombustível, com novos insumos industriais, coquetéis enzimáticos, leveduras, processos catalíticos, tudo dentro do escopo da Embrapa, em conjunto com usinas e produtores. Adotamos mecanismos de cocriação e codesenvolvimento de tecnologias, possibilitando a rápida adoção dessas ferramentas. O portfólio da empresa de pesquisa abrange modelos, práticas, métodos de certificação, incluindo o RenovaBio, que é sustentado por tecnologia de análise de ciclo de vida, como a calculadora RenovaCalc, desenvolvida pela Embrapa. Novos modelos, variedades, métricas, insumos industriais e processos de etanol e biodiesel estão sempre em desenvolvimento.

De acordo com o pesquisador, a ideia é aumentar a produção e o uso de biocombustíveis para promover a reciclagem de CO2, e evitar a emissão de carbono novo de fontes fósseis no Brasil.
Foto: Felipe Carvalho
Os resíduos da produção do biodiesel e do etanol podem ser utilizados na composição do SAF?
Existem várias rotas para produção de SAF. Uma das vias é o etanol, outra é óleo vegetal, que, no processo de hidrogenação, gera gasolina verde, diesel verde e, ao final, querosene verde. Ao se utilizar óleo, podem-se obter óleos residuais. Há oportunidades para integrar produção de óleos, biodiesel, SAF e etanol.
A Lei Combustível do Futuro pode tornar o Brasil referência em mobilidade sustentável?
A Lei está em processo de regulamentação. Ela cria mandatos de SAF, biometano, aumenta mistura de etanol e biodiesel, traz marcos para captura de carbono e, acoplado a isso, o marco do hidrogênio. Boa parte está em regulamentação atualmente. A ideia é que, ao longo deste ano, o governo avance nas regulamentações para implementar as medidas de estímulo. A lei é extensa e deve ser analisada caso a caso conforme o avanço.






